Há planta que nasce
se você planta
Há planta que encanta
de tanta beleza
e nasce sozinha na natureza
morrendo no tempo sem que ele passe
Não planta, e colhe sem ter
aquilo que nasce sozinho
E então não se escolhe
deixando que o pólen
se junte ao trabalho
do plantador passarinho
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São seis da manhã e o celular já toca as notas que sempre chegam para tira-lo do sono. Ele, Israel, odeia o celular, talvez seja só porque interrompe as únicas horas em que ele pode ter o que quer. Levanta-se e já não vê mais sua mãe, ela costuma sair meia hora antes para o trabalho do outro lado da cidade. Seu pai, ele nunca viu. Acorda com um beijo carinhoso sua irmã de apenas quatro anos, oito a menos que ele. A menina permanece na cama da mãe todos os dias, ela dorme lá, não fosse assim, seria na cama dele. Não há um café da manhã, apenas a mesa, todos os dias posta por insistência da mãe. Aliás, há café, só café. A irmã, por sorte tem a creche que se inicia às sete, meia hora antes da escola dele, ambos comerão por lá. Também por sorte, ou por direito.
Norhan Sumar
É preciso que sejamos livres. Livres para acessar, pensar, criticar e nos revoltarmos quando necessário. É preciso que sejamos livres para expor opiniões e sentimentos. É preciso haver liberdade para que possamos ir e não ir, vir ou ficar onde estamos. Mas é preciso que haja liberdade com ética e não liberalismo, para que possamos diminuir as distâncias provocadas pelo individualismo. Precisamos derrubar as paredes dessa prisão claustrofóbica do fatalismo, onde colocam nas nossas cabeças que a mudança é impossível. Entregar a alforria para o próprio pensar é estar pronto para o debate e para revolta. Afinal, a ressaca do mar não acontece na piscina, ainda que as águas sejam as mesmas.
1. vide link: http://escapismogenuino.wordpress.com/2012/01/16/liberdade-por-zenos-frudakis/
Foto: Juliana Sumar... Eis aqui a magia e a beleza do Brasil!
segunda-feira, 4 de março de 2013
Há planta
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Tempos mais modernos
Em meio ao caos
disfarçado
Compra-se vida
sem saber
Todos se rendem
a viver
De alguma forma
controlados
O som da voz é
quase sempre amordaçado
E por não saber
a hora de sorrir,
já não se acorda
sem querer dormir
Pois tempo é lucro
no mundo do mercado
Tem quem
trabalha e não consome
Quem coma muito
bem
Porém também
quem tenha fome
E na injustiça
cresce o bicho homem
O sofrimento
permanece aquém
Comumente só se
muda o nome
A fuga
"Loucura"
Agnelo Bronzino
Robin era um menino pacato, quieto, aguerrido somente quando se tratava de
reparar alguma injustiça com o gordinho ou o nerd da turma da escola. Gostava
de ser chamado de Robin e sempre dizia não ver problema algum em ter inventado
seu próprio apelido, pois quando outros inventavam geralmente eram
depreciativos. Costumava dizer que o apelido era em homenagem ao Hood, por ser o
único super-herói que fazia uma justiça real de reparar as desigualdades,
roubando de ricos e dando aos pobres. “Essa coisa de monstro de terra, robô com
poderes, homem pinguim, gente voando, pode até ser divertido, mas não existe. Existe
gente rica e gente pobre, gente com muito e gente miserável. Herói pra mim é
quem enxerga isso.” Dizia sempre com veemência, alheio a quase tudo que poderia
ser mais comum por conta de sua idade. Robin não se interessava muito pelas
rodas de conversa da sua turma de sétima série colegial. A única coisa que o
rapaz não conseguia renegar era a ebulição oriunda da idade: corpo, pelos,
hormônios, dúvidas, revolta. Certa vez, num daqueles dias em que o adolescente
parece não caber dentro de si e algo precisa sair - tudo precisa ser dito ou
não haverá espaço para pensar mais, criar mais - ele perguntou a professora de
geografia porque era mais importante decorar as capitais estaduais do que
descobrir os motivos pelos quais alguns homens tinham muita terra, muitas casas
e outros homens não tinham nada e viviam nas ruas. A professora, confusa,
preferiu encarar como uma afronta ao seu plano de aula diante da insistência do
menino por uma resposta e lhe aplicou uma ótima advertência e um passeio à
direção. Robin era perguntador, curioso, mas ninguém parecia
interessado em fazer as mesmas perguntas que ele. Me parecia estar nascendo uma
árvore, repleta de galhos, bons frutos e uma bela sombra a servir muitos que
passassem por ela, mas a quantidade de jardineiros imperitos a podar seus
galhos, seus questionamentos, arrancando-lhes os frutos antes de estarem
maduros era tanta que as dúvidas foram permanecendo aprisionadas, a capacidade
de expor foi se eximindo aos poucos. A questão é: as palavras precisam ser
ditas, as perguntas precisam ser feitas, as respostas precisam ser perseguidas
(e nem sempre encontradas), ou a mente transborda.Agnelo Bronzino
Robin
estava tirando dos ricos e dando aos pobres, assim como sempre quis. Com seu
arco em punho, de flecha em flecha ia derrubando os guardas até chegar ao
próximo tesouro para então fazer a festa de quem queria no mínimo comer. Corria
pelas ruas bravejando contra as injustiças do mundo, dizendo ser Robin Hood e
tentando formar um exército de aliados. O apelido de criança (que ele dera a si
próprio) se tornou realidade, ainda que só para ele. Foi seu primeiro delírio,
e nem teve tempo de chegar ao momento de repartir o tesouro encontrado,
tranquilizantes impediram o feito nobre da justiça, homens de branco se
encarregaram da imobilização com aquela camisa estranha que faz a pessoa
abraçar a si mesma – o menino percebeu e achou intrigante que único abraço
recebido ao vesti-la seria o próprio – bela recompensa por fazer justiça.
Ninguém falava nada além de nomes de remédio e doses acompanhadas de olhares
inexpressivos que pareciam significar alguma coisa. Enquanto a mãe chorava o
menino só tentava explicar que ele estava fazendo o justo, sem entender porque
ninguém concordava com ele.
A
mente dele transbordou pela primeira vez aos dezoito anos. Não se pode
subestimar a mente, ao passo que a enchemos a todo o tempo com tanta
contradição e perguntas sem respostas, devemos esvaziá-la na mesma medida – ou
ela encontrará a sua própria rota de fuga.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Ingênua
Eduardo insistia em
dizer que “antes de cobrarem dele uma conduta ética, moral, que a filosofia
tratasse de resolver o que era cada uma delas”. Em suas aulas de Economia
Política nas salas da Universidade, a figura de professor o permitia o
privilégio de incitar todo tipo de debate para então deixar que os argumentos
se confrontassem enquanto ele apenas observava sem manifestação. “O debate
quase nunca se faz entre idéias, mas entre pessoas e orgulhos, que as vezes até
se preocupam com as idéias”, se defendia ao conversar com Alfredo, professor de
Ciência Política e fervoroso membro do Partido Comunista. Nos idos da conversa
de bar dizia que a única ética que o contemplava era a contida no código da
profissão. “E olhe lá!” afirmava. Duas horas de conversa se passaram para que
Alfredo iniciasse sua confidência:
- Edu, tem uma aluna...
Cara, 18 anos de docência e uma conduta sem desvios. Mas ela eu não sei te
dizer o que tem, ela é única, meu camarada. Essa menina está me fazendo sentir
vivo de novo.
Alfredo insistia que
ele continuava a ser ético, ou seja lá o que fosse, apesar do romance. Com os
olhos marejados, perdidos em algum lugar acima dos ombros de Eduardo, comentava
a silhueta jovial, cabelos cacheados até aquelas nádegas redondas e imponentes,
olhos cheios de vivacidade, seios soltos por de trás daqueles vestidos,
afirmando ainda mais sua liberdade subjetiva. “Ela é dotada de uma ingenuidade
que me excita, me tira do prumo completamente, meu caro”.
- Até a ingenuidade
pode ter seu traço intencional, amigo – sorriu Eduardo com o canto da boca
antes de continuar – a mulher que sabe o poder que a ingenuidade exerce sobre
os homens, será ingênua sempre que puder.
No instante que Eduardo
tentava arrancar do amigo, diante daquele “desvio de conduta”, alguma
tranqüilidade ou sorriso com tais filosofias baratas, Alfredo, ao contrário,
empalideceu instantaneamente e fixou os olhos inexpressivos na porta do bar.
Parecia estar vendo o próprio Che Guevara entrando. Mas via, na verdade, a sua
aluna, jovial, travessa, trazendo uma segurança no andar e algo de instigante
no sorriso. Trajava um jeans que abraçava suas pernas até morrerem em suas
sandálias de couro trançado até os tornozelos, a blusa era algo indiano ou
afim, que deixava um dos ombros a mostra, no cabelo um rabo de cavalo que
deixava boa parte solta nas costas. Eduardo até compreendeu melhor seu amigo,
era realmente uma jovem muito atraente, mas caminhava na direção dos dois com
seu braço rodeando a cintura de um rapaz também sorridente e vivaz, beijando-a
o pescoço de tempos em tempos sem parar de andar. Daí a perplexidade de
Alfredo. Parou diante da mesa e com um “olá professores, é bom saber que vocês são
seres humanos também.” - um sorriso que não deixava claro ser de prazer ou
ironia, tão sensual que até Eduardo a desejou em silêncio – se abaixou e ao
beijar o rosto agora corado de Alfredo e continuou: “um beijo no meu melhor
professor”, e se atirou novamente nos braços do rapaz – um merdinha, segundo
Alfredo – que sorriu para os professores acenando com a cabeça e deu as costas,
levando consigo a aluna e sua ingenuidade.
- É meu camarada, a
ingenuidade nas mãos erradas pode causar um estrago.
Pobres homens, sempre
mais ingênuos do que imaginam.
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Palavras
Ideias na Cabeça
Autor desconhecido
Começa o jogo e elas são reféns
Prisioneiras no cárcere de nós
Tentando construir a fuga pela voz
Ou na timidez de qualquer gesto
Enfrentando todo tipo de protesto
Se fazem livres entre sinais e sons
Você inerte enquanto elas dão o tom
O jogo inverte, pois, seus papéis
E ao dizê-las você descobre o refém que és
Norhan Sumar
domingo, 2 de setembro de 2012
Largada

São seis da manhã e o celular já toca as notas que sempre chegam para tira-lo do sono. Ele, Israel, odeia o celular, talvez seja só porque interrompe as únicas horas em que ele pode ter o que quer. Levanta-se e já não vê mais sua mãe, ela costuma sair meia hora antes para o trabalho do outro lado da cidade. Seu pai, ele nunca viu. Acorda com um beijo carinhoso sua irmã de apenas quatro anos, oito a menos que ele. A menina permanece na cama da mãe todos os dias, ela dorme lá, não fosse assim, seria na cama dele. Não há um café da manhã, apenas a mesa, todos os dias posta por insistência da mãe. Aliás, há café, só café. A irmã, por sorte tem a creche que se inicia às sete, meia hora antes da escola dele, ambos comerão por lá. Também por sorte, ou por direito.
Bem
perto dali, no “asfalto”, apenas algumas centenas de degraus abaixo, o celular
por sorte só toca quarenta minutos depois. Ele, Gustavo, também odeia o
celular, talvez só por ser adolescente mesmo. Acorda quase sempre com a voz da
mãe, à mesa na companhia de seu irmão mais velho. Beijos e “bom dia” para o
início do desjejum. Seu pai, de vez em quando liga para não perder o costume. Sua
mãe é quem o leva para a escola depois do café, enquanto seu irmão ruma para a
faculdade. O quinto ano de Engenharia parecia ter levado de seu irmão aquela
leveza de alguns anos atrás.
Israel
deixa sua irmã no caminho, sempre aos cuidados da tia Benedita da creche,
simpática e firme, se é que seja possível. Também no caminho, quase sempre
encontra alguns amigos de sua infância, sem uniforme escolar, hora portando
rádios comunicadores e armas, hora portando a companhia do pai e roupas sujas
de cimento. Questiona-se sobre qual das possibilidades está mais próxima dele
já que não tem pai. A insistência da mãe é o que mantém na escola. Por ele trabalharia,
para ajudar a mãe, e também porque gosta muito de biscoito. Talvez pudesse
comprar alguns.
Gustavo
segue no carro de sua mãe. A escola não é muito longe, mas como mora ao pé do
morro, ela prefere não correr o risco de deixar que percorra o caminho sozinho.
Também passa por alguns de seus amigos de infância, na companhia dos pais,
empregadas ou até sozinhos, mas todos com seus uniformes escolares. Gustavo
também não estudaria se fosse por ela. Se para ser advogado tivesse que
enfrentar salas de aula por 60 horas semanais durante os próximos 10 anos, ele
desistiria bem antes não fosse a pressão da mãe. Queria ser marinheiro e ir pra
onde lhe desse na telha. Talvez como advogado pudesse fazer isso.
Nas
salas de aula, as angustias eram quase sempre as mesmas, não fossem as lacunas deixadas
pela falta de professores na escola de Israel. No mais, anseio pela hora do
recreio, provas, colas, educação física, aulas infinitas de matemática. Aquela
coisa que certa vez a professora de português de Israel falou sobre agregar
valores, ele não sabe bem se acontecia de fato. E se acontecia, era tão sutil
que ele nem percebia.
Na
volta, por vezes sem esperança alguma, em outras com uma fagulha acesa, Israel pensava,
ao subir seus degraus da vida olhando para baixo, na falta de sorte que tinha.
Que tipo de sorte(io) divino o colocara a apenas algumas centenas de degraus da
facilidade, da felicidade, da esperança, da fartura, do poder, dos biscoitos,
do asfalto?
Gustavo
não questionava muito. Nutria apenas a curiosidade de saber como era tudo logo
ali em cima. Como eram as brincadeiras, as casas, as mães. Perguntara a sua mãe
certa vez, que apenas disse que era cheio de pessoas armadas vendendo drogas e
matando gente, assim como noticiam os jornais. Gustavo também subia seus
degraus de vida, mas eram apenas alguns até o segundo andar.
De
degrau em degrau, caminhavam os dois para algum lugar desconhecido. Seja para o
segundo andar após alguns degraus, seja para bem mais alto após centenas deles.
O lugar até poderia ser o mesmo no final da caminhada, mas certamente demoraria
mais a chegar quem tem mais a subir. As semelhanças que os uniam, garantidas
pelos direitos ou pela sorte, mascaravam as diferenças. E aí está a questão que
ninguém pergunta em nenhuma das escolas: não seriam as diferenças os melhores
alimentos da revolta? Pois essa costuma se alimentar do que lhe cruza o
caminho, inclusive biscoitos.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Foto: autor desconhecido - Escultura: Zenos Frudakis¹
É preciso que sejamos livres. Livres para acessar, pensar, criticar e nos revoltarmos quando necessário. É preciso que sejamos livres para expor opiniões e sentimentos. É preciso haver liberdade para que possamos ir e não ir, vir ou ficar onde estamos. Mas é preciso que haja liberdade com ética e não liberalismo, para que possamos diminuir as distâncias provocadas pelo individualismo. Precisamos derrubar as paredes dessa prisão claustrofóbica do fatalismo, onde colocam nas nossas cabeças que a mudança é impossível. Entregar a alforria para o próprio pensar é estar pronto para o debate e para revolta. Afinal, a ressaca do mar não acontece na piscina, ainda que as águas sejam as mesmas.
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"Amar é querer que tudo seja primavera
É sonhar mesmo estando acordado
Amar é estar só e não sentir-se sozinho
Também pudera. Também pudera"
...
...
Pela saudade que tortura o coração
Pela verdade que eu vejo em teu olhar
Pela dúvida que alimenta a paixão
Pela vontade que existe no amar
Nos seus carinhos, de prazeres aflorados
Na minha cama, tão vazia sem você
Sem seus sorrisos e olhares marejados
Sem nossas roupas, a vestir o chão gelado
Sem meu colo, pro teu corpo aquecer
...
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Fonte de toda inspiração...
Foto: Juliana Sumar... Eis aqui a magia e a beleza do Brasil!




