quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O lembrar salutar

                                                               Foto: Mariana Rocha        

Eu estava a caminho de um daqueles lugares que marcam as nossas infâncias, que representam partes importantes de nossas vidas. Eu já conseguia até mesmo sentir o cheirinho da casa, ouvir a voz da vovó chamando os netos para o café com bolinhos de chuva.  Me emocionei com fato de poder visitar o porão das minhas lembranças e não via a hora de caminhar novamente pelos campos e estradas de barro puro nas quais eu costumava sujar de forma inexplicável as minhas roupas.

Mas quando eu cheguei nada era igual, nada estava no lugar. Nem mesmo a casa da vovó era a mesma, tampouco o pequeno monte que subíamos para trepar em árvores e escorregar na lama estavam ali. Tudo aquilo, aquelas lembranças, se resumiam a homens e máquinas trabalhando incansavelmente na construção de uma rodovia. Trabalhavam num ritmo tão intenso que pareciam ser capazes de terminá-la tão rápido quanto atravessá-la de ponta a ponta com o mais veloz dos carros.
Aquele lugar só poderia, dali em diante,  ser visitado por mim através das minhas memórias, das lembranças que ainda trago daqueles momentos mágicos de felicidade infantil.
E assim é tudo nas nossas vidas. Tudo um dia pode virar lembrança sem aviso prévio. Tudo pode passar para o campo das memórias. As melhores fases de nossas vidas  e as piores também, os nossos entes queridos e assim os mal quistos, as paixões, os desamores, as amizades, as loucuras, os excessos, as faltas, os amores, os amantes, os erros, os acertos, a própria vida. 
Tantas são as lembranças e memórias da vida que muitos vivem somente de lamúrias ou glórias das vivências de outrora. Esses deixam de viver em plenitude o presente, talvez nem vislumbrem algum futuro diferente. Esperam por um futuro estático, morno.  Definir o seu futuro sem abrir espaço para o incerto me soa como limitar as próprias memórias que virão... na verdade, planejar é sadio, mas querer manipular as próprias lembranças vindouras é um tanto quanto obsessivo.
Lembrar pode ser salutar. Eu me permito lembrar os traços que me orgulhavam nas pessoas que não estão mais entre nós (desencarnar, transcender, morrer, falecer, partir dessa para melhor... seja lá como for que você chame isso), pensar no que contribuíram para a formação do meu caráter; lembro dos momentos que me fizeram feliz, e até dos momentos que me fizeram triste, mas me permitiram crescer; as lembranças são puros reflexos da intensidade e do valor que você deu aos momentos vividos. Portanto não deixe de seguir com plenitude e saciedade os caminhos da vida, além de aproximar ao máximo as pessoas que te fazem bem, afinal, ninguém se contenta com lembranças superficiais e desinteressantes provenientes da negligência para com a prória existência. E como disse Virginia Woolf: “Não se pode ter paz evitando a vida.”
Norhan Sumar

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dúvidas bem-vindas

Eu costumo mergulhar nessas dúvidas, me lançar sem medo das seqüelas do tombo. Aliás, nós nunca esperamos o tombo, mesmo sabendo que ele pode realmente acontecer. Eu falo das dúvidas do amor, das paixões desmedidas e enlouquecedoras. Que graça teria um paixão branda, morna, calma? Assim seria melhor a compaixão. Talvez um carinho ou afeto. Mas a paixão, essa é arrebatadora, revolta, cheia de marés que podem nos levar dos corais mais cortantes aos mais belos paraísos tropicais. Por vezes aos dois lugares ao mesmo tempo.
O pior de tudo talvez seja tentar entender a paixão. Tentar lutar contra ela, achando ser o mais corajoso dos cavaleiros. Ela se alimenta das intempéries, cresce cada vez que ousamos freia-la de alguma forma. As paixões são sempre teimosas, quase sempre impossíveis e bem melhores quando são difíceis. Nada melhor do que a realização de estar ao lado de alguém cujo esforço para tal momento foi dos maiores. Quase como um troféu após um dia inteiro de batalhas com as feras do coliseu (troféu, no melhor dos sentidos, é claro!).
Eu adoro as mulheres cheias de dúvidas, cheias de atitudes que nos enchem das mesmas dúvidas, cheias de pretendentes que me fazem querer ser o melhor deles, dotadas de uma independência capaz de nos fazer sentir um complemento em suas vidas e não algo essencial como nós homens gostamos. Essas despertam as dúvidas e os anseios que engrandecem as paixões.
Eu quero o lado incompreensível da paixão, eu quero sentir o coração na boca ao vê-la em minha frente e sentir que estou prestes a infartar quando nos beijamos. Eu quero quantas paixões eu puder ter, quero tê-las e esquece-las, quero que algumas se tornem grandes amores e se renovem em paixões diferentes pela mesma mulher. Quero que algumas se tornem grandes amores e se acabem na compaixão da amizade. Eu quero vivê-las sem medo de estar errado, eu quero estar mesmo errado porque não só os acertos me agradam. Eu quero transformá-las em poesias, transcreve-las em versos, toca-las em músicas, beijá-las em silêncio e, talvez, chorar nas despedidas.   
Norhan Sumar
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Um pouco de poesia

Bonita

Ela é tão bonita de fazer calar
Tão bonita que faz dizer
Quão bonito é se apaixonar
Tão finito isso possa ser

Ela é tão bonita de admirar
A paz bonita do amanhecer
Que mais bonita possa ficar
Se ela habita no seu viver

Ela é bonita de sorriso tanto
Do bonito que se rende amável
A faze-la esquecer do pranto

Ela é bonita de acalento brando
Do bonito que se entrega instável
Ás tormentas de estar amando

Norhan Sumar


Você é poesia


Você me beija a boca

Como quem escreve poesia
Com os lábios a versar em sintonia
Em tom de valsa a tocar em sinfonia
Como se tudo isso fosse coisa pouca

A sua dança emana charme
Como se nada lhe constasse em tal momento
E seu sorriso fosse o único alento
De quem deseja lhe prover o acalento
E lhe trazer o novo amor que acalme

Você me abraça medindo as palavras
Mas seu olhar me sorri inquieto
Condenando o porquê se calavas
Ao sentir que eu estava por perto

Então em música a noite acaba
Em dúvida vem a despedida
Sem saber se os caminhos da estrada
Vão unir novamente essas vidas

Norhan Sumar
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

As vitrines da superficialidade

Pra falar a verdade, eu já estava incomodado com isso, então confidenciei a uma grande amiga o fato de achar todas as pessoas que eu me envolvia desinteressantes o bastante para eu não querer levar nada a frente. Confesso que não havia falado sobre isso com mais ninguém. Principalmente por concordar com ela ao achar que as minhas exigências deveras limitadoras me distanciavam de qualquer possibilidade de construir uma história com algum ser humano que exista nessa dimensão.
Só para deixar claro: eu estou longe de querer a perfeição. Na verdade, acho a perfeição meio chata, monótona e até utópica. Uma coisa hollywoodiana inalcançável, mas que insistimos em buscar.
E ultimamente os comportamentos se tornaram tão estáticos, superficiais, que se torna difícil até conhecer alguém que você acredita ser interessante. Passados alguns anos em uma juventude de boemia quase desenfreada, acredito que eu tenha “enchatecido” quando analisei as situações de uma forma diferente.
Nas noites de hoje as mulheres parecem estar em uma vitrine, esperando um consumidor com um pagamento (ou argumento, depende da mulher... E do homem também, é claro) capaz de comprar algumas de suas palavras e um pouco de sua atenção. Ou algum corajoso disposto a gastar a verborréia e a persuasão para fazer com que ela fique com ele por alguns instantes ou fique mais valorizada ainda frente às outras concorrentes da “prateleira”.
Não é uma crítica a quem gosta de sair à noite, até porque eu também gosto. Tampouco uma crítica a quem conheceu o amor da sua vida no auge do “batidão” às três da manhã. Todavia, acredito que o flerte, a troca de olhares, as conversas e os momentos para conhecer alguém não precisam ter hora e dia marcados, onde nós nos arrumamos e “vamos á caça” como os homens geralmente fazem. E se você é mulher e sai à noite para dançar, achando que não se comporta dessa forma, acredite: você o faz. Se estiver dançando, quer queira quer não, será um dos produtos da extensa vitrine observada por consumidores ávidos pelo seu desfrute. Mesmo que não esteja “à venda”.
É claro que eu concordo que nós sempre nos comportamos assim, desde que alguém aumentou o som e falou que aquilo era uma festa. Mas as coisas hoje estão deturpadas ou ao menos diferentes demais para minha compreensão. As pessoas vivem o dia-a-dia como se ele não fosse mais importante do que os breves momentos com as luzes piscando na pista de dança. Elas não olham quem está sentado ao lado nas praças, elas sequer sentam nas praças; não percebem que alguém está olhando diferente ou que alguém diferente está olhando; muitas pessoas, sem notar, não se dão ao luxo de flertar nas ruas, até porque isso tem hora e lugar marcados (para elas); alguns outros não tentam manter um diálogo com alguém por mais de 10 minutos durante o dia, embora tenham o melhor dos discursos fotográficos - parece que eles guardam as falas na carteira - para atingir a incrível marca de dezenas de beijos na boca em uma só noite. E isso não é coisa só de adolescente, a não ser que a adolescência dure até os 30 anos e eu não saiba. Por essas e outras eu acredito que esteja tudo diferente. Nós estamos perdendo o hábito de nos relacionarmos naturalmente com as outras pessoas.
Enfim, não que essas pessoas estejam erradas. Afinal, gosto não se discute. Talvez essa seja mais uma de minhas exigências infundadas me servindo de subterfúgio para continuar achando natural não prosseguir em um relacionamento com alguém que pareça mais normal que eu.
Norhan Sumar
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

A bela e a Serra

Faz algum tempo que eu a conheci, com sua recepção calorosa e gélida ao mesmo tempo, com seus comportamentos atípicos, com uma dinâmica diferente da que eu conhecia até ali. Mesmo tendo vivido bastante tempo perto dela sem saber, eu fui apresentado a ela nos primeiros anos de uma adolescência fugaz e bem vivida.
            Quando me fora apresentada a Serra Natal, com o clima que convida à noites geladas e manhãs mais geladas ainda, principalmente para um estudante de dez anos, habituado à correria do Rio de Janeiro e aos calores da baixada fluminense, confesso que não morria de amores por ela. Confesso até que essa Serra Natal, antes chamada por mim de Petrópolis, não me conquistava nem mesmo com sua melhor virtude – e que eu nem queria saber qual era.
            Inusitadamente, aquela jangada fadada ao naufrágio em que eu achava estar embarcando, foi ganhando força com seus tripulantes bem educados, onde curiosamente as pessoas que nem me conheciam me desejavam “bom dia” na espera pela condução. Ou que, para minha surpresa, as ruas desse lugar eram limpas de fato; pelo frio cortante da manhã que dava licença ao sol e a um calorzinho aconchegante e acolhedor; pelas caminhadas, rodeadas por prédios e praças que conservam beleza e charmes seculares; pela oportunidade ímpar de andar pela rua na adolescência sem que o fantasma da violência assombrasse demasiadamente os que me educavam. A lista de motivos é imensa e agradável, mas vamos à continuação deste texto.
            Há quem diga que esta não seja terra das oportunidades, tampouco o melhor lugar para um boêmio saciar seus desejos impávidos pela noite. Todavia, há de se considerar os breves cinqüenta minutos que nos separam da capital do estado, com todas as suas oportunidades e seu leque variado de opções para a boemia.
            Sou um defensor ávido das belezas e dos prazeres do Rio de Janeiro, da agitação convidativa, das noites estreladas e do bom-humor intrínseco desse povo que tinha todos os motivos necessários para viver a contragosto e na contramão disso tudo. Mas sou tomado por uma paz interna ao voltar para Serra Natal, uma paz de ver que a loucura e agitação podem acabar em apenas uma hora de viagem; uma paz em sair de casa sem pretensão e encontrar amigos de infância; a paz advinda do clima provinciano, que muitos deturpam dizendo que esse clima está relacionado a mania feia de alguns que cuidam da vida alheia com mais afinco do que cuidam da própria. Esse não é um problema do clima, é um problema do ser humano.
            E foi assim que ela me conquistou: gélida como uma mulher acostumada a ser traída, calorosa como uma mulher apaixonada, receptiva como uma avó que recebe os netos cheia de doces e quitutes, charmosa como uma mulher que está sempre pronta para o mais importante dos encontros, calma como a mais experiente das mulheres, alternativa como uma jovem hippie e, sobretudo, linda como a que faz palpitar o meu coração apaixonado.

Norhan Sumar    
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tudo e nada

Nada, não é nosso fato isolado
Sempre é tudo que nos assola
Nada que eu faça por ti aflora
Tudo que meu gostar tem passado

Te ver é pouco por tudo que quero
Mas parece muito pra tua vontade
Talvez te amedronte a felicidade
Pra fazer repelir o amor sincero

A minha tolice me faz refém
da bonita de beleza tanta...
e dos erros que não convém

Ainda sim eu não me torturo
quando a vida me sorri às tantas...
não dou passos na solidão, ainda que no escuro.



Norhan Sumar
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O mar de amar

Não se espera mais dessas ondas
que sua força e forma
Não se espera mais desse mar
que sua própria imensidão
Não se espera mais dos homens
que a admiração do infinito...
de incertezas convidativas
Vindas do mar...
Vindas do amar.

Norhan Sumar
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O mar de amar de Norhan Sumar é licenciado sob uma Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported.