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domingo, 26 de março de 2017

Gergelim

Lá dentro cresce um gergelim
Sem sons ou chutes, por ora
Sem poupar ninguém da demora
De chegar e mudar os sorrisos e sono


Lá dentro cresce um gergelim

Sem minha mão ou ajuda, por ora

Sem saber o que passo aqui fora

Ao tentar fazer parte, sem saber como


Lá dentro cresce um gergelim

E não poderia haver melhor lugar

Pela mulher cujo ventre é forjado ao lutar

Pelo amor que nem sabe, mas já é dono


Germina, semente e vem pra cá

Desvenda mais coisas dentro de mim

Eu espero ansioso essa hora chegar

Enquanto lá dentro cresce um gergelim


Imagino a gente de uns anos pra lá

Nem sei se sei dar tudo de mim

Mas por ora eu posso tentar

Enquanto lá dentro cresce um gergelim


(Norhan Sumar)

Papai te espera!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Regionalidade


O temperamento regionalista, inerente a minha vontade, me intriga, irrita, incomoda, estimula.
Há algum tempo como forasteiro na terra cinza, de gente fria e clima não diferente, tenho aprendido a lidar com algumas diferenças minhas e alheias:
 A introspecção das pessoas como um consenso quase geral de comportamento;
A falta de comprometimento com a educação do “bom dia”, “boa tarde” e afins;
A pouca preocupação (ou nenhuma) em ser simpático, receptivo, turístico ou amigável.
Entre outras coisas.
Detalhes que me fazem aprender a conviver comigo mesmo; mostram-me que eu tenho todos os atributos pra ser a minha melhor companhia; que a solidão não é vilã, só precisa ser administrada e compreendida; mas que em nenhum lugar do mundo encontramos somente pessoas indisponíveis às relações interpessoais, isso estimula ainda mais a percepção e receptividade de quem busca o contato.
Ainda que com consideráveis diferenças de convivência, não me sinto excluído ou renegado. Confesso que nem me incomodo com a indiferença dos nativos. Afinal, nem sempre quero conversar na fila do banco, no ponto de ônibus ou no banco da praça. Essa novidade momentânea não me desagrada. O que me surpreende é que, mesmo me achando um forasteiro atípico por entender a personalidade local, não consigo negar as minhas origens e suas peculiaridades: cresci escutando que a minha regionalidade me faz esperto por natureza, cuja verborréia é capaz de convencer ainda que retórica, que a audácia é atributo insubstituível, que a eloqüência pode ficar pra última frase do discurso, que as pessoas me achariam malandro mas gostariam disso, que as mulheres me achariam canalha mas também gostariam disso e por aí vai.
A questão é que mesmo com esforço para aderir a certos comportamentos, os traços da personalidade que representam a regionalidade são esculpidos em nós, lapidados vagarosamente até que nos tornem um representante da terra natal. E querendo ou não, carrego comigo a vontade de manter acesa essa chama de regionalismo e saudade. E certamente o clima gélido, o comportamento frio e a garoa que nos recebem por aqui não representarão sequer ameaça de apagá-la.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Simplicidade

Descobri que sou simples; que me apego pelo simples; que me aconchego na simplicidade; que tenho hábitos simplistas; que meu desejo é simplesmente viver... Considerando a diferença discrepante entre vida e sobrevida.
Tenho usufruído, com um entusiasmo intrigante, de uma peça rara, que nem gosto de chamar de computador ou notebook. Eu o chamo pelo nome: "Matusalém". Sei lá se esse foi o primeiro laptop a ser vendido. Mas se não foi, passou bem perto disso. Ele até traz consigo uma entrada USB para conexão do meu famigerado pen drive (que eu imaginava não viver sem), mas acho que esse LIFEBOOK não gosta muito desses apetrechos inovadores que ajudaram a findar Sua Majestade. Eu cedi e estou salvando meus pensamentos em um disquete (inclusive esse).
Se é possível se encher de satisfação com isso eu não sei, apenas sei que me pego imaginando esta peça memorável na minha frente o dia inteiro. Aspirando pelo momento em que esse teclado sentirá o toque dos meus dedos a transcrever minhas idéias e vivências. E nem me deixo contaminar pela preocupação de ter de achar um computador dotado de simplicidade que ainda aceite o disquete no seu dia-a-dia (acredite, isso não é tão fácil assim... Mas se você está lendo esse pensamento agora, eu consegui).
Claro que não falo apenas disso quando cito a simplicidade. Falo de uma personalidade que o permita saciar com o que nos circunda o tempo todo: a vida; a ingenuidade de um cachorro que se aproxima sem saber se lucrará um pedaço de pão, um cafuné no cocoruto ou um safanão; a ingenuidade de alguns de nós que fazem a mesma coisa (inclusive eu); as cores ao nosso redor, que clamam por alguns momentos de atenção em vão - geralmente estamos ocupados demais pra receber a beleza do simplório; na esperança que me alimenta ao ver um adolescente dar lugar a um idoso no ônibus lotado; na vivacidade infinita das crianças; no cansaço questionável dos adultos; nos poucos amigos que falam a verdade sem medo de nos machucar (as feridas da mentira cicatrizam mais lentamente); na vaidade das mulheres, com seus perfumes, adornos, roupas, charme, penteados e uma vontade intrínseca de ser notada (não pelas mulheres, mas por nós... Saibamos apreciá-las e o discurso "as mulheres se vestem para outras mulheres" mudará imediatamente); no sorriso... Ah, o sorriso! A simplicidade enigmática trazida por ele me inunda.
E é por querer a simplicidade das coisas que acabo querendo tudo, querendo muito. Mas não quero aquele muito imensamente difícil de ter, quero aquele muito que eu encontro em você, nelas, neles, naquilo ou naquele. Quero a simplicidade imensurável que há em viver sendo o centro de minhas prioridades, despreocupado com o que esperam de mim, desde que eu seja o que eu espero, sem ferir ou atingir ninguém que não mereça. Se isso for egoísmo, sou egoísta por absorver a vida como se ela fosse passar por aqui e não mais voltar. Certamente isso não me impede de amar as pessoas e te-las ao meu redor. E pra quem acha que estou perdendo alguma coisa:
Ser simples não significa ser pouco.
Norhan Sumar

sábado, 8 de janeiro de 2011

Sem medo e sem coragem

Na verdade só vim parar aqui, frente a esse "LIFEBOOK" de 1987 com sistema operacional de 1995 (cedido carinhosamente por um vizinho de quarto) após alguns tórridos minutos de duelo com o travesseiro - que de forma impressionante pareceu bem mais forte que eu - por me sentir enfraquecido pelas dúvidas, pela angústia, pela saudade da família, pela distância que me separa dos amigos, pelo cansaço de trabalhar incessantemente em algo totalmente fora da minha formação... Enfim, pelo preço que se paga por querer a distancia; por querer construir histórias pra contar em versos.
Falam de coragem comigo como se eu a tivesse. Um engano tamanho. Eu tenho vontade; algo que emana ao viver o novo, ao conhecer o novo, ao desbravar as minhas próprias fronteiras. Mas a coragem... Ah, essa ri de mim. A minha relação com a coragem é distante. Eu até posso vê-la, mas nunca a toco; tampouco a sinto perto de mim o bastante para dizer que somos íntimos.
Uma estabilidade enganosa motiva nossos planos. Depois de um diploma de ensino superior e alguns cursos técnicos em baixo do braço, vi que não quero a estabilidade de um bom salário e uma vida normal demais. Talvez eu queira essa vida daqui a alguns anos. Mas não acho justo que deixemos o ímpeto da juventude ser corrompido pela dinâmica social que suga as nossas forças e despreza a nossa capacidade de produção.
Eu parti em busca do novo e descobri que o caminho não é fácil - tal como diriam/disseram os mais velhos se eu comunicasse a minha decisão de partida. Mas os caminhos não precisam ser fáceis para serem bem vividos, aproveitados, desbravados e entre outras coisas, inesquecíveis. Eu quero alimentar a minha memória de experiencias praticadas enquanto a juventude me acompanha, enquanto a vontade ainda sobrepõe o medo. Porque eu sei que o medo vem; entra na nossa vida sem dar sinal. E quando vemos, lá está o nosso novo comandante, cauteloso, calmo, pouco errante, muito apreensivo, deveras defensivo... O medo - por vezes confundido com a sensatez ou experiência acumulada.
E por falta de palavras pra continuar explicando a minha ânsia por essa descoberta que fascina meu âmago; também por notar que este texto está se alongando e ficando um pouco desconexo, aqui encerro dizendo que coragem não significa ausência de medo, porque mesmo achando o medo um adversário pífio diante da sagacidade juvenil, continuo vendo de longe a coragem, sempre um passo a frente - rindo de mim a cada hesitação, falando de longe em tom superior: eu avisei!
Por Norhan Sumar

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Criando paixões, inventando amores

Logo ao entrar eu me deparo com um lago enorme - com proporções semelhantes a vinte ou trinta campos de futebol - as pessoas aqui andam de bicicleta, patins, skates, a pé, ou nem andam. Algumas se limitam (não que isso seja de fato um limitação) apenas a sentarem-se e apreciarem suas companhias e a cena privilegiada de comunhão salutar entre natureza e animal (incluindo-nos, é claro).
Caminho de vagar, observando cada passo meu e cada gesto alheio. Meus olhos parecem um pouco perdidos e pouco entrosados com meus anseios. Mas eu os compreendo. Afinal, que miscelânea de maravilhas!
As arvores parecem disputar entre si a que será mais esguia e bela; as aves parecem ter ensaiado uma coreografia por meses; a água do lago parece ter se ajustado à flora para favorecer o contraste; as pessoas, por sua vez, não fazem feio e tratam de ser tão belas em gestos que chego a me sentir deslocado e me pego olhando pra mim mesmo a comprovar se estou desfigurando esse paraíso.
Após cinquenta metros de caminhada - apenas cinquenta metros e eu poderia ir embora satisfeito - eu me deparo com algo no mínimo curioso e sento-me perto para descobrir o final da cena - chamo para minha companhia Fernando Sabino e Mário de Andrade que estavam em baixo do meu braço por todo esse tempo. Quatro meninas, lindas por sinal, na companhia de uma cachorrinha (que foi a única a caminhar os quinze metros que nos seperava para dar as boas-vindas) amarravam uma espécie de corda entre duas árvores. Isso me fez pensar desde uma rede até uma cabana de camping (se é que era permitido), mas nunca em um palco para prática de arte circense. Pois é, aquelas interessantes meninas andavam por sobre a corda e ainda conseguiam arrumar concentração para se fazerem belas.
Foi quando, movido por impulso ou atração involuntária, me levantei e fui até elas:
"Posso tirar uma foto de vocês?" Perguntei, deixando as quatro com a mesma feição de curiosidade e surpresa. "Ai, que vergonha!" Respondeu a artista do momento, em seguida consentindo permissão com um gesto que conciliava tremendo charme e alguma timidez.
Eu assim o fiz: fotografei o momento e sem trocar mais nenhuma palavra com as artistas do parque ofereci a câmera para que elas vissem o resultado daquela peripécia. Agradeci e me retirei.
Que tolo! Eu poderia ter conversado com elas. Elas são de fato interessantes! Eu permaneço olhando de longe, apreciando cada gesto de sutileza feminina associado ao charme dos movimentos artísticos. Mas Mário de Andrede e Fernanado Sabino estavam juntos dentro daquele livro, e são além de convincentes, muito convidativos. Eu mergulho nas páginas do livro, sentado sobre a grama fresca, com as costas apoiadas numa das belas árvores e quando encontro novamente a paisagem que me circunda eu noto que elas estão partindo e também me observando. Meu corpo pega fogo, começando pelos pés e subindo lentamente até esquentarem rapidamente meu rosto. Eu as observo partir, da mesma forma que elas observam a minha imobilidade.
Talvez eu estivesse apaixonado... Mas não por elas, pelo momento. Por aquele lugar de sol fresco e harmonia perfeita entre cores e sons. Olhei para os lados e percebi a presença do amor entre os vários casais presentes. Que contagioso esse sentimento! Voltarei na próxima semana para me apaixonar novamente, mas não só pelo parque, também por elas... pelas quatro, talvez por uma delas... Ou mesmo por outras. Afinal, adoramos mesmo um amor inventado.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nortinamentesulino-centrosudestino

          Passada a primeira semana, superado o primeiro choro incessante após as palavras no telefone da criança amada que fora deixada para trás, visitados os primeiros e lindos lugares na companhia do mais novo amigo. Nesse breve período de novas experiências, percebi, de fato, que o que mais importa não são os lugares em que estamos ou que estão em nós, mas importa muito as pessoas que nos cercam e querem bem.
        Recém chegado em solos estranhos, como contei há pouco, ainda me esforço para adaptar ao que me parece uma cultura digna de outra nação. Sorte minha - ou não (já explico isso) tenho sido muito bem auxiliado por um nobre morador, vizinho de quarto da república que agora chamo de lar. O surpreendente é que esse morador não é curitibano. Na verdade é difícil dizer o que ele é. Nascido no Pará, vivido no Ceará, trabalhado por São Paulo, escolado no Paraná e andado por Maceió, ele é mais novo que meus vinte e três anos, mas carrega histórias tantas que fazem dos momentos vividos em sua companhia imensamente divertidos e proporcionalmente interessantes. Ademais, carrega uma generosidade intrínseca, prestatividade capaz de abrir as portas de seu quarto à um estranho e ceder a cadeira de seu nobre computador para as atualizações que vocês têm lido nos últimos dias - além de sugerir (experiência adquirida em seu blog) a maioria das mudanças estéticas e inovações que tem apresentado o "Pensou, tá falado!" nos últimos dias.
            A possível má sorte, citada no parágrafo anterior, se dá ao fato do mais novo amigo, e mais próximo de mim no momento, estar sendo consumido pelo seu espírito andarilho que o fez ser um nordestinosulista-centrosudestino, impulsionando-o para o retorno ao nordeste do Brasil. Desta vez para Fortaleza. Me parece que já perdi para distância a companhia do meu primeiro amigo feito em terras sulistas.
            Talvez, se eu me esforçar um pouco, atenuo meu egoísmo e até fique feliz por ele. Conservarei as lembranças de um cearense (escolhi o Ceará) bem humorado, amigo, companheiro, competente no trabalho (é o que dizem por aqui... mas eu acredito), cuja solicitude me permitiu tanto uma apresentação da cidade digna de guia turístico - que se perdia quase sempre, mas principalmente digna de um amigo próximo, rendendo algumas cervejas em lugares lindos (com mulheres lindas em igual proporção) como o Largo da Ordem.
               Do cearense que gosta de livros (embora seja réu confesso em não entender boa parte das palavras usadas nestes textos), contos e filmes de terror, ex-metaleiro, interessado em bons livros e filmes, solícito aos extremos, ficarão algumas recordações materializadas em doações feitas ao amigo aqui. Além disso, ficou um compromisso de devolve-lo tais utensílios daqui a um ou dois anos lá no nordeste do país. Talvez eu escreva bastante sobre a capital das tribos do sul do Brasil. Talvez eu sinta o peso da ausência do meu novo amigo. Mas talvez ele tenha surgido aqui (e na minha vida) para definir a próxima parada do bem-aventurado daqui a um ano: Fortaleza-CE. Nos vemos nas praias... Boa viagem, amigo!


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Solos estranhos

            Há dois dias na tão desejada Curitiba... Tal como a maioria dos seres humanos (incapazes de vivenciar a felicidade plena), já encontrei motivos consideráveis ao redor para frear toda aquela ansiedade juvenil que alimentou meus anseios antes de ver do alto o maracanã.
            Seja pelo sol - tão discreto - que dá o ar de sua graça como se estivesse desbravando um lugar estranho; pela estrutura - tão européia - que me faz pensar como se existisse um oceano entre mim e o Rio de Janeiro; pelas inúmeras desistências - tão convincentes - que não massageiam muito a auto-estima de um recém-chegado; ou pela saudade de um calor humano que me permita alguns sorrisos gratuitos pelas ruas da cidade maravilhosa. Por essas e outras eu me abalo, me calo, escalo as montanhas da motivação atrás de ventos de ânimo que me soprem na direção correta.
            Na verdade, Curitiba te abraça - não que seus habitantes o façam - não à um recém-chegado, principalmente oriundo do Rio de Janeiro. Mas a cidade, essa sim te recebe de braços abertos mesmo sem um Cristo Redentor. Ademais, perdoem-me as curitibanas, mas ainda estou a espera de me surpreender com a beleza feminina que fora tão mencionada e referida por visitantes de outrora. Em contrapartida, insisto em acreditar que meu Rio de Janeiro faria uma bela disputa, de igual pra igual.
            Em busca dessa beleza, arquitetônica e feminina, que me fizeram desembarcar nestes solos, continuarei a minha exploração. Procurando ser imparcial e discreto, pois o oposto disso seria carioca demais pra ser aceito.
Por Norhan Sumar