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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A fuga


"Loucura"
Agnelo Bronzino
Robin era um menino pacato, quieto, aguerrido somente quando se tratava de reparar alguma injustiça com o gordinho ou o nerd da turma da escola. Gostava de ser chamado de Robin e sempre dizia não ver problema algum em ter inventado seu próprio apelido, pois quando outros inventavam geralmente eram depreciativos. Costumava dizer que o apelido era em homenagem ao Hood, por ser o único super-herói que fazia uma justiça real de reparar as desigualdades, roubando de ricos e dando aos pobres. “Essa coisa de monstro de terra, robô com poderes, homem pinguim, gente voando, pode até ser divertido, mas não existe. Existe gente rica e gente pobre, gente com muito e gente miserável. Herói pra mim é quem enxerga isso.” Dizia sempre com veemência, alheio a quase tudo que poderia ser mais comum por conta de sua idade. Robin não se interessava muito pelas rodas de conversa da sua turma de sétima série colegial. A única coisa que o rapaz não conseguia renegar era a ebulição oriunda da idade: corpo, pelos, hormônios, dúvidas, revolta. Certa vez, num daqueles dias em que o adolescente parece não caber dentro de si e algo precisa sair - tudo precisa ser dito ou não haverá espaço para pensar mais, criar mais - ele perguntou a professora de geografia porque era mais importante decorar as capitais estaduais do que descobrir os motivos pelos quais alguns homens tinham muita terra, muitas casas e outros homens não tinham nada e viviam nas ruas. A professora, confusa, preferiu encarar como uma afronta ao seu plano de aula diante da insistência do menino por uma resposta e lhe aplicou uma ótima advertência e um passeio à direção. Robin era perguntador, curioso, mas ninguém parecia interessado em fazer as mesmas perguntas que ele. Me parecia estar nascendo uma árvore, repleta de galhos, bons frutos e uma bela sombra a servir muitos que passassem por ela, mas a quantidade de jardineiros imperitos a podar seus galhos, seus questionamentos, arrancando-lhes os frutos antes de estarem maduros era tanta que as dúvidas foram permanecendo aprisionadas, a capacidade de expor foi se eximindo aos poucos. A questão é: as palavras precisam ser ditas, as perguntas precisam ser feitas, as respostas precisam ser perseguidas (e nem sempre encontradas), ou a mente transborda.


Robin estava tirando dos ricos e dando aos pobres, assim como sempre quis. Com seu arco em punho, de flecha em flecha ia derrubando os guardas até chegar ao próximo tesouro para então fazer a festa de quem queria no mínimo comer. Corria pelas ruas bravejando contra as injustiças do mundo, dizendo ser Robin Hood e tentando formar um exército de aliados. O apelido de criança (que ele dera a si próprio) se tornou realidade, ainda que só para ele. Foi seu primeiro delírio, e nem teve tempo de chegar ao momento de repartir o tesouro encontrado, tranquilizantes impediram o feito nobre da justiça, homens de branco se encarregaram da imobilização com aquela camisa estranha que faz a pessoa abraçar a si mesma – o menino percebeu e achou intrigante que único abraço recebido ao vesti-la seria o próprio – bela recompensa por fazer justiça. Ninguém falava nada além de nomes de remédio e doses acompanhadas de olhares inexpressivos que pareciam significar alguma coisa. Enquanto a mãe chorava o menino só tentava explicar que ele estava fazendo o justo, sem entender porque ninguém concordava com ele.
A mente dele transbordou pela primeira vez aos dezoito anos. Não se pode subestimar a mente, ao passo que a enchemos a todo o tempo com tanta contradição e perguntas sem respostas, devemos esvaziá-la na mesma medida – ou ela encontrará a sua própria rota de fuga.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Epidemia


“Como pode alguém usar crack, Nelson?” perguntava Daniele, nutricionista de um centro de saúde em Cachoeira, uma cidade pequena no interior.
“Não sei, Dani. Como médico não consigo explicar o que leva uma pessoa a embarcar nessa, mesmo com tanta informação, com a mídia, com os profissionais dizendo como as pessoas precisam viver para serem saudáveis.” Respondeu o médico enquanto conversavam no pátio externo da unidade e Nelson aproveitava para acender mais um cigarro.
Os trabalhos estavam calmos naquele dia, como era o habitual na pequena cidade de Cachoeira. Mas como se costuma dizer, os bandidos saem da Capital em busca de refúgios nas pudicas e pacatas cidades de interior para fugir da repressão policial ou coisa que o valha. As cidades pequenas, construídas nos entornos das paróquias, se livram de seus pecados todo domingo de manhã, durante as missas rezadas pelos padres estrangeiros que santificam qualquer pecador após meia dúzia de Aves Marias. E Cachoeira começava a padecer desse “mal.”
“Dani”. Recomeçou o médico. “Será que o sedativo do viciado da sala de repouso ainda está fazendo efeito?” tragou mais uma vez seu cigarro de filtros amarelos que lhe custavam dedos manchados pelo hábito longínquo. “Daqui a pouco ele começa a dar escândalo novamente.” Terminou, acendendo o cigarro da amiga com a brasa de seu próprio.
Eles estavam apenas aguardando a chegada da ambulância para transferência do Aldo. Mais um dependente químico que precisou utilizar o sistema e o sistema não o desamparou. Seus profissionais preparados, formados para serem críticos, reflexivos, humanizados, cientes das diferenças sociais impregnadas no país, cuja abordagem dialógica dá voz ao usuário no processo saúde-doença, trataram de atender a demanda daquele homem que precisava apenas de uma internação a fim de “limpar” seu organismo do tóxico e recondicionar seus hábitos. Simples como tudo parece ser.
A epidemia não fez e não faz distinção, chegou até a pequena Cachoeira. As internações eram encaminhadas para cidade vizinha, um pouco maior, com um hospital de pequeno porte e seus trinta leitos. Mas os investimentos eram tão escassos –  por vezes em estratégia de compulsoriedade nas internações - como em qualquer capital. A realidade de Cachoeira parecia caótica, com usuários de drogas ilícitas pelas ruas sendo criminalizados pelo consumo, transgressores das normas e leis que conduzem o Estado. Tinham ainda alguns dos moradores de rua antigos por ali, incluídos no grupo de “viciados”, pertencendo a ele ou não. E a epidemia era iminente. A epidemia que sofrem as capitais. A doença da desumanização dos tratamentos, das prescrições comportamentais estáticas, do desrespeito ao próximo, da indiferença diante das injustiças e contradições da sociedade. Ah, e o crack? Mas o crack não é a epidemia. A nossa doença é outra!

Norhan

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Primeira viagem


Todo aquele cenário parecia ter sido montado para o momento. A forma que ele tinha de me tocar expressava o que vinha adiante. Nossos olhares se cruzavam em cada toque e ali ficava explícita a minha insegurança. E ele, ah... Ele era muito habilidoso em transmitir todo o seu conhecimento sobre o meu corpo – provavelmente não só o meu. A luz sobre nós iluminava o ambiente de uma forma cuidadosa, capaz de não deixar escapar o mínimo detalhe – confesso que me fez sentir ressabiada e tímida em alguns momentos. “Aquela era a hora”, insistia ele, afinal, já estávamos juntos há alguns meses. Todos aqueles encontros, aqueles contatos e descobertas. Sorrimos juntos, choramos juntos, embora ele sempre comedido, ocultasse as lágrimas atrás de um sorriso admirável de quem compreendia o meu momento. Tudo era favorável, eu queria que fosse a hora, e queria que fosse ele, mas compreendam o meu medo, era a minha primeira vez. Não é tão simples enfrentar a primeira vez com segurança de que tudo será indolor e harmônico. Ao menos não foi assim que Telma me contou a sua própria experiência. Ela disse que nunca mais pisou naquele lugar. E mais, nunca teve interesse de ligar praquele crápula. Já no meu caso, tudo parecia perfeito, a pessoa certa, o momento certo, o ambiente favorável, só faltava uma música. “Mas para que?” perguntava ele. Então começamos – despida, deitada a sua espera, exposta às suas próprias vontades, vulnerável e frágil, estava eu, com os mamilos protuberantes, suplicando por algo a protegê-los do gelo que se fez ali, sentindo a minha genitália pulsante, inchada, cada vez mais úmida. Ele começou conversando comigo, sorrindo um pouco e me deixando tranqüila, tocando meu ventre em leves carícias, fazendo movimentos coordenados, simétricos e confesso que relativamente prazerosos; e, contrariando a calma anterior, sem muita cerimônia juntou o indicador e o dedo médio e num único movimento, sincronizado e pericial, introduziu os dois dedos na minha vagina sem olhar nos meus olhos – ainda não havia dor, somente dúvida. Ele conduziu tudo tecnicamente, Paulo era o nome dele inclusive, alheio a qualquer movimentação que não fosse a minha, a nossa, ele continuou. Conversava comigo enquanto eu gemia, me contorcia de dor, e continuou até ouvir o aquele grunhido de prazer e desprazer, a sinonímia mais perfeita que o choro pode ter, o primeiro conflito entre felicidade e tristeza - nasceu. Fora um parto natural, sem complicações graças às habilidades de Paulo – Dr. Paulo se preferirem. Decidimos tudo no último encontro em seu consultório. Ele, ainda muito habilidoso prosseguiu rompendo os laços físicos entre mim e a minha nova razão de vida, aguardou a expulsão da placenta e finalmente a entregou para uma Técnica em Enfermagem que trouxe até meu colo a expressão mais profunda do meu prazer, minha cria, minha filha. 
Norhan Sumar

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Impressão

 
Theodoro sempre corria por lá. E com a mesma freqüência com a qual ele corria, era observado por Vanessa. Dessa vez fazia um sol convidativo de inverno, a praia não estava muito cheia por se tratar de uma quarta feira de agosto. Estava, como sempre, trajando uma camiseta branca, daqueles tecidos que facilitam a transpiração, shorts pretos, meias cano alto e um tênis branco que parecia ter sido projetado para ele. No seu Ipod o Djavan ditava o ritmo de suas passadas. Theo, como preferia ser chamado, não gostava de músicas muito agitadas para correr.
Voltemos a Vanessa. Uma jogadora de vôlei de praia profissional, loira, e alta como o de costume nesse esporte. Havia notado Theo há algumas semanas, com sua altura que superava 1.90M, cabelos negros e formas atraentes. A concentração se perdia, as bolas chegavam á areia antes que ela pudesse impedir, para a loucura tempestiva do seu treinador. Era uma mulher muito atraente e nunca tivera problemas para conquistar o homem que lhe despertasse o desejo. Aquela seria só mais uma investida.
Ele diminuiu as passadas, parou o tempo no seu Nike SportWatch GPS e começou seu alongamento para encerrar mais uma de suas corridas matinais. Ela já sabia que ele faria isso, ele era metódico. Sentou-se em uma das mesas do quiosque e ficou observando a disposição muscular daquele homem em cada movimento que fazia. Dali, a cerca de três metros dele, ela achou que seu bíceps parecia um pouco maior e suas coxas denunciavam a sua rotina de corrida.  O corpo de Vanessa estava quente e ela já pensava naquele homem a envolvendo com a força que parecia ter e sua nuca se arrepiou seguida de um tremor que certamente não era por conta do frio.
Theo já havia percebido a presença dela. Percebera também que ela trajava a indumentária de uma atleta e seu corpo não a deixava mentir. Ela usava brincos e tinha as unhas pintadas, mesmo ainda estando suada por ter acabado de deixar a quadra de treinos. Não passou em branco aos olhos de Theo que ela havia refeito o rabo de cavalo em seus cabelos. Sentou-se e esperou que aquela linda loira seguisse com seu plano de aproximação, que estava explícito.
“Bom dia! Posso sugerir uma reidratação com reposição de eletrólitos? A julgar pelo suor, acredito que tenha corrido bastante.” Sem rodeios a mulher falou se aproximando de Theo que a observava calado.
Ele sorriu, o que a fez arrepiar novamente. Ela adorava essa sensação que precedia o sexo. “E você acha que somente água não é capaz de reidratar um atleta?” Rebateu Theo.
“Só estava disposta a te deixar melhor preparado para uma próxima rotina de exercícios que possa eventualmente acontecer.” Enquanto a mulher falava, Theo se levantou e puxou uma das cadeiras para ela. Com um gesto ela agradeceu e continuou. “À propósito, meu nome é Vanessa.”
“Theo, prazer!” Dessa vez, ele notou que o rosto da mulher estava mais vermelho que o normal e optou por poucas palavras.
A conversa continuou quase como um duelo, com investidas ofensivas da mulher cujas pernas pareciam merecer um seguro contra sinistros e respostas evasivas do atleta amador que mantinha a boa forma correndo diariamente na Zona Sul Carioca. Ela, completamente envolvida com aquele bíceps rijo cada vez que Theo passava a mão nos cabelos negros, mal percebeu que ele estava sendo somente educado e não envolvido.
“Estou esperando alguém. Marcamos aqui para almoçarmos juntos.” Falou Theo, sem parecer embaraçado com a situação.
E como só acontece nas telenovelas e contos, nesse instante duas mãos cobriram os olhos de Theo e uma voz decidida pediu para que ele adivinhasse quem era.
Agora Vanessa estava com o rosto totalmente vermelho. Sentia suas bochechas tão quentes que poderia arriscar que queimaria as mãos ao encostar em si mesma.  Não conseguiu esconder que estava trêmula quando com a mão direita pegou seu suco de abacaxi com hortelã para tomar um gole e evitar a necessidade de algum comentário.
Theo, com seus gestos calmos e atraentes, ainda arrancando suspiros e arrepios de Vanessa, se levantou e fez as honras. Ainda segurando as mãos que cobriam seus olhos há pouco, apenas encostou os lábios nos lábios do recém chegado. “Oi amor, já estava ficando preocupado.”
Olhou para Vanessa e percebeu seu desconforto. Mas como seu namorado não permitia mais que um selinho em locais públicos, para evitar os olhares curiosos que ainda insistiam em incomodar, ele continuou: “Esse é Fred, meu namorado. Essa Vanessa, uma amiga de exercícios, amor.” Esperou que os dois se cumprimentassem, com o sorriso sem dar uma folga para os músculos de seu rosto, prosseguiu: “Até mais, Vanessa. Nos vemos por aí!”

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Amiga


“A gente podia chamar o Carlos e a Tati pra irem juntos, né amor?” Ela falava com um dos pés apoiados sobre o porta-luvas e o outro sobre o banco e nem ao menos olhava para o marido. No momento da pergunta passava um menino de bermudas no calçadão que para o desgosto dela segurava uma prancha que a impedia de ter uma visão completa da silhueta atlética do rapaz.
“Pode ser.” Respondeu ele, que por sua vez segurava o volante do seu novo Pajero com a mão direita envolvendo a parte superior do mesmo enquanto apoiava o braço esquerdo na janela, que independente do ar condicionado, ele gostava de deixar aberta – seja pelo vento fresco da Zona Sul carioca, seja pela necessidade de afirmar o status e o poder de dirigir um carro como o seu.
Os dois chegaram em seu apartamento que permitia uma vista privilegiada do mar de Ipanema através das janelas de vidro que se estendiam ao longo da parte frontal de toda a sala de estar. Mas nenhum dos dois sequer olhou para o balanço discreto do mar tranqüilo daquela manhã de domingo. Ela insistiu dizendo que o Carlos e Tati eram excelentes companhias, apesar da Tati ser mal educada e o Carlos ficar a maior parte do tempo enaltecendo as milhares de virtudes dela.
“Você não acha que ela fala alto demais?” Ela mantinha o monólogo com a sensação de que o marido nem a estivesse ouvindo. Mas ele nunca ouviu mesmo. E como sempre ela continuou mesmo assim: “E o Carlos, né? Vive falando que a mulher dele é isso, é aquilo. Chega a ser chato. Não sei como ela agüenta. Ela nem me parece ser isso tudo.”
Ele geralmente não ouvia boa parte das coisas que a mulher falava. Aprendera, depois de 14 anos com ela, que seria salutar pra ele e pro casamento que um filtro fosse colocado entre seus ouvidos e os impropérios que ela costumava dizer. Mas dessa vez ele ouvira e ela esperava ansiosa pela participação do marido naquela crítica a seus melhores amigos. “Se a gente chamar os dois, vamos ter que ir num lugar barato e chinfrim, porque eles não têm dinheiro. E você vai ficar reclamando no meu ouvido depois. Certamente.”
Ela já segurava o telefone em uma das mãos quando o marido respondeu. E como também era de costume, começou a discar o número da Tati como se não tivesse ouvido o comentário dele. O celular chamou três vezes antes que uma voz respondesse, seguida de alguns sorrisos que denunciaram que a felicidade não tinha nada a ver com a ligação, mas com alguma situação que precedia a mesma.
Ela ignorou os sorrisos e foi direta, sem conseguir esconder o quanto aquela felicidade constante deles dois a incomodava. “Oi Tati, tudo bem?” E como se já soubesse a resposta, continuou antes que a própria Tati tivesse direito a ela. “Claro que sim, né? Como sempre. Hoje eu e o Thomas vamos fazer alguma coisa a noite. Pensamos em jantar naquele restaurante perto do Posto 5 em Copacabana. Eu sei que é um pouco caro, mas queria te ver, amiga. Estou com saudades. Vamos?” Ela ignorou também o que seu marido falara e chamou o casal para jantar em dos restaurantes mais caros da orla. Queria frustrar a sua amiga. Ou no mínimo explicitar a inferioridade financeira deles dois.
Tati não levava a sério essas investidas maldosas de sempre. Gostava de sua amiga há 16 anos, desde os tempos da faculdade e entendia as mazelas de uma vida que prendia sua amiga num casamento cujo retorno único e precípuo é o financeiro.
“Não posso, amiga. Estamos voltando da praia. Já viu como  mar de Ipanema está lindo hoje? Estávamos aí perto da sua casa. Só não liguei porque sei que vocês não gostam ficar na areia. Hoje o Carlos vai fazer um jantar pra nós dois. Ele quer fazer meu prato favorito e disse que eu sou só dele. Só não sei o que ele está planejando fazer depois. É mole? Mas ele comentou comigo em chamar vocês dois pra um churrasco lá em casa semana que vem. Sei que é um pouco longe, mas queria que fossem.” Tati venceu a insistência da amiga. Ouviu mais uma vez a banalização das atitudes de Carlos. E finalmente ouviu que talvez ela fosse nesse churrasco na semana seguinte. Tati lamentou pensativa a vida da amiga, que sairia pra um jantar mudo com seu marido, num restaurante caro, pra compensar as inúmeras faltas do casamento.
Desligou o celular, olhou pela janela e contemplou as ondas. “Talvez a felicidade seja mesmo relativa.” Comentou com Carlos, que dirigia de volta pra casa segurando o volante com a mão esquerda, enquanto a outra acariciava a nuca de sua mulher.

domingo, 12 de junho de 2011

Um entre tantos


Enquanto eu conto essa estória de encanto, dor e pranto. Há de vir um “entretanto” de amor que dá ao canto por enquanto um teor de esperança...
Contar-lhes-ei um caso de querer-bem de um soldado raso que sem temer o susto, lutava pelo justo amor a sua terra. Enfrentava o entreposto, mesmo que à contragosto, servia-se de continências sem rostos e sem motivo suposto em uma guerra.
Do outro lado, sem saber da vida do soldado raso, havia um destino que trouxera uma menina chamada Carolina para os campos do acaso e do amor que nunca erra.
O soldado já cansado, num momento desatento se deixou ser baleado. Com seus olhos apagados e mais a dor do ferimento fora finalmente derrubado. Sem sequer um movimento, nem de pernas nem de braços, conseguiu se por de lado e ver o sangue derramado a se juntar ao chão gelado.
Recém acordado, com um dos olhos entreaberto, de sua morte estava certo, sem saber que sua sorte lhe fizera muito forte pra vencer osso quebrado.
O soldado, tarde levantara pra jogar água na cara, sem ter tempo ele repara que a enfermaria se ilumina, como jóia rara na presença da menina, Carolina. Trouxe em mãos os seus cuidados, nos olhos inocência, no corpo a aparência que conquista reverência e transforma apaixonados.
Os olhos se cruzaram, o coração acelerado conduzindo o contato do homem que pra ela era só mais um soldado. Ele ainda trôpego, se refez inteiro em fôlego, sem saber no que pensar, falou sem gaguejar sugerindo um jantar com a dama mais bonita que ele vira respirar. A moça então corou, aceitou sem hesitar. E foi nessa ocasião, ao sentir suar a mão, que o sorriso lhe brindou com a emoção que o amor lhe reservou. A estória começou.
Mas como em toda estória de amor, o azar afronta a sorte, de Romeu e Julieta a Dom Quixote, que no final trazem a morte pra fincar a dor no forte. O soldado já curado, novamente enviado às trincheiras do injustificável, pra enfrentar a deplorável limitação humana, envolto no medo e na mazela de morrer enquanto ama, só fazia pensar nela.
Já a menina, a bonita Carolina, apertada de saudade, conhecera a parte boa da maldade e seus bocados, mergulhara nos pecados sem temer as possibilidades. Mas a paixão não se limita à certeza, e faz do fraco fácil preza, conduzindo aos caminhos tortuosos da vontade.
Eis que o soldado, antes forte e imbatível, submerso no controverso previsível de estar mais perto do invisível que é o amor, se rendeu de novo ao inimigo, tal como no incidente antigo, porém com um tanto a mais de dor. Viu novamente o chão de perto, sem ter ao menos descoberto o que a vida lhe guardava, chorava por saber que não veria novamente aquela que amava.
Carolina conheceu o amor, a dor e o pranto. Esperara, no entanto, que as rosas desse campo lhe trouxessem só encanto e se enganou. Provou caminhos tantos de espinhos  e quebrantos presentes no sentimento que aprendeu desde menina que continuamos vivos ao morrer por dentro.
Norhan Sumar

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma homenagem através d'outra homenagem: 
Habilidade com as palavras e com os fatos, apresentados abaixo com maestria pelo contador da referida estório/história (como quiser).
Um prazer imensurável poder expor suas palavras por aqui, amigo!
Deliciem-se.

Ps.: qualquer semelhança com alguma história que vocês conheçam pode ser mera coincidência!
 
“ Vou te contar a história de um grande amigo que conheci nos tempos de colégio. O rapaz levava sua vida tranquila na pacata Petrópolis, onde fazia sua faculdade, tinha sua família, sua linda sobrinha, além de suas dezenas mulheres. Certo dia resolveu aventurar-se numa grande cidade, a saber, Curitiba. O rapaz estava acostumado a andar de trem na sua cidade, além das charretes dos cicerones nos fins de semana, com as quais visitava os pontos turísticos daquela pequena terra, que nos primórdios era apenas um conjunto de três fazendas. Alias, visitar casas velhas, com odores estranhos e quadros mal assombrados era o único divertimento da população. Na despedida para Curitiba convidou seus amigos para um encontro na pracinha da cidade, onde ao lado da mesma havia um barzinho. Nesse barzinho reuniam-se sempre pessoas sem destino na vida, tais como os bêbados, os viciados, os desviados e as desviadas. A despedida foi marcante, muito choro, muitos abraços, tudo o que merecia aquele fiel e escudeiro amigo de todos. No dia de partir, ao pegar um ônibus, algo que ele nunca havia entrado, para a Cidade Maravilhosa, sentiu todos aqueles frios na barriga. Nas 4 horas de viagem até o aeroporto da cidade, devido às tempestades do verão e tudo o que elas acarretam , esbravejou solilóquios devido à ansiedade, deixando os passageiros do referido meio de transporte assustadas. Na chagada ao aeroporto, nunca havia o rapaz visto algo tão magnífico. Na verdade o que mais o impressionou foi o tal do bebedouro, além de ficar tentando derreter o gelinho no mictório. Na entrada do avião teve que ser carregado para o seu assento, onde esperou até passar por cima do Maracanã, local que só conhecia de nome, e depois correu para o banheiro. Reza a lenda que só saiu de lá quando chegou ao solo firme e que três rolos industriais de papel foram utilizados. Depois de todo o ocorrido, ele leva sua vida na tal grande cidade. Deixou saudades aos amigos, mas todos sabem que tudo isso será muito bom para ele. Afinal de contas, descobriu o que é um viaduto, um sinal de trânsito, aprendeu a falar perguntando e deu três dias a mais de trabalho para a equipe de limpeza da empresa do avião, gerando emprego e renda!”

Rodrigo Rocha (Rood)

quarta-feira, 30 de março de 2011

Felicidade relativa

 
 “você não vai ter coragem de ir até lá, vai?” Perguntou o amigo cauteloso, tão assustado quanto os outros dois.
 “Claro que vou, Pedro. Deixa de ser medroso, é só um mendigo.” A coragem lhe aflorava a face. E ele caminhou em direção ao maltrapilho que falava alto, coisas que pareciam não fazer o menor sentido para os quatro meninos.
“Arthur, toma cuidado com o cachorro dele.” - Alertou o menor dos amigos - “não chega muito perto.”
“Confia, Paulo. Olha bem pro Aldo, parece até querer vir comigo.” - arriscou estendendo a mão em direção ao amigo - que fingiu não ter ouvido, aproveitando para esconder as mãos no bolso.
E assim foi o mais corajoso dos meninos. A felicidade lhe saltava os olhos. Parecia não temer nem um pouco aquele homem de barba longa e branca, cabelos sujos e mal cuidados, com roupas rasgadas e de hábitos muito duvidosos. O homem vivia naquela praça a repetir frases que os meninos pouco entendiam: “Eu que sempre contestei pouco, conservei minhas virtudes desde a vivacidade juvenil, e hoje vivo feliz à minha maneira, sem me render aos hábitos desse mundo hostil. Você que sempre contestou muito, foi um jovem de ideal, hoje se rendeu, e na sua própria mediocridade banal é mais infeliz que eu...” Ouvindo as palavras do velho homem, Pedro se aproximou diminuindo a velocidade dos passos quanto mais perto chegava. Pra sua surpresa, o homem levou a mão ao bolso e tirou de lá um embrulho laminado que começou a abrir com cuidado.
“Não esqueça de levar um pouco pros seus amigos.” – Falou o velho homem, oferecendo ao menino o papel laminado com alguns pedaços de chocolate dentro.
Arthur não recusou às boas vindas, mas antes que pudesse fazer as dúzias de perguntas que tanto queria fazer o homem continuou: “Agora pode ir. Não quero que pensem que estou fazendo mal a uma criança. Mas obrigado por vir aqui. Você tem muita coragem. Não é qualquer um que chega perto de um velho louco como eu.”
“Obrigado!” Foi tudo que o menino conseguiu dizer antes de se virar e começar a correr o mais rápido que podia em direção aos amigos.
 Aldo, Pedro e Paulo não quiseram comer os chocolates dizendo que deveriam estar podres ou envenenados. Arthur os comeu só. Assim como pulou só da ponte até o rio certa vez. Entrou tantas vezes na propriedade de Seu Inácio para afanar algumas frutas, tendo Paulo o acompanhado apenas uma vez. E fez tantas outras coisas que com o passar dos anos fizeram de Arthur um homem cheio de histórias pra contar e experiências na memória.
Naturalmente, os três amigos de Arthur casaram, tiveram filhos e continuam a se reunir para lembrar as aventuras que somente Arthur vivera. Todos na cidade conheceram o menino dos sorrisos e do bom coração; das aventuras tantas que algumas passaram a ter moldes de lendas contadas pelas avós a seus pequenos netos. Já Arthur, talvez seja mesmo protagonista de mais uma história cujo final ninguém nunca saberá contar. Na cidade ele não é visto há alguns anos. Sabe-se apenas que um dos netos de Paulo, ao visitar sua tia no estado vizinho, contou ter recebido um papel laminado cheio de chocolates de um velho maltrapilho que falava “um monte de coisa estranha” e mandou um forte abraço para os três amigos mais corajosos que ele conhecera.
Norhan Sumar