segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Entre a criação e o produtivo

Entre o criativo e o produtivo há um hiato
Os dois, processos e atos
Um deles de entrega onde se nega o tempo
O outro há tempo estabelecido  de entrega
Um é quantidade, volume, mão de obra e mais-valia
O outro é qualidade e obra, de mãos e mentes sem pressa
Os dois, processos entre fatos
Um deles exercício, pensamento e construção
O outro é ofício, vicioso, artifício de opressão
Os dois processos e nem sempre acesso
Um é consumo, descarte e obsolescência programada
O outro uso, inspirado, inesperado e criação
Um determina classe, salário e vida
O outro não há se há determinação social de um projeto burguês de educação
Entre o produto e a criação não há fronteiras
Um é o outro a depender de quem compre
O outro é o um a depender que de quem cria
Um é produzido pelo proletário e consumido pela “nova” classe média
O outro construído nas vielas, nas favelas, nos semáforos entre prédios
Produto é criação que se compra
Criação agora é produto do capital
Entre um e outro um hiato, de sentidos e ideal

terça-feira, 18 de junho de 2013

Meu estado coletivo

Me disseram que uma andorinha não faz verão
e que meu pranto, portanto, se faz desnecessário
Mas o verão nem sempre traduziu meu ideário
Se é no canto que as vezes eu guardo o violão

Me disseram que toda a caminhada seria em vão
Se geralmente o cansaço chega antes do destino
Mas como cercear o sonho de um menino
ao ladear o caminhar impetuoso daquela multidão

Eu disse a Eles que meu "estado" não era "sozinho"
E que aquele povo já não mais era conformado
Trazia aprisionado o ressoar de um novo brado
Que não aquele velho retumbante e mesquinho

O povo veio em massa, com a revolta a abrir caminho
Cansado da falácia do diálogo com a classe dominante
E a democracia brasileira se renovou naquele instante
Em que nós vimos o verão de andorinhas que saíram de seus ninhos

Norhan Sumar

segunda-feira, 4 de março de 2013

Há planta

Há planta que nasce
se você planta
Há planta que encanta
de tanta beleza
e nasce sozinha na natureza
morrendo no tempo sem que ele passe

Não planta, e colhe sem ter
aquilo que nasce sozinho
E então não se escolhe
deixando que o pólen
se junte ao trabalho
do plantador passarinho

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tempos mais modernos


Em meio ao caos disfarçado
Compra-se vida sem saber
Todos se rendem a viver
De alguma forma controlados

O som da voz é quase sempre amordaçado
E por não saber a hora de sorrir,
já não se acorda sem querer dormir
Pois tempo é lucro no mundo do mercado

Tem quem trabalha e não consome
Quem coma muito bem
Porém também quem tenha fome

E na injustiça cresce o bicho homem
O sofrimento permanece aquém
Comumente só se muda o nome

A fuga


"Loucura"
Agnelo Bronzino
Robin era um menino pacato, quieto, aguerrido somente quando se tratava de reparar alguma injustiça com o gordinho ou o nerd da turma da escola. Gostava de ser chamado de Robin e sempre dizia não ver problema algum em ter inventado seu próprio apelido, pois quando outros inventavam geralmente eram depreciativos. Costumava dizer que o apelido era em homenagem ao Hood, por ser o único super-herói que fazia uma justiça real de reparar as desigualdades, roubando de ricos e dando aos pobres. “Essa coisa de monstro de terra, robô com poderes, homem pinguim, gente voando, pode até ser divertido, mas não existe. Existe gente rica e gente pobre, gente com muito e gente miserável. Herói pra mim é quem enxerga isso.” Dizia sempre com veemência, alheio a quase tudo que poderia ser mais comum por conta de sua idade. Robin não se interessava muito pelas rodas de conversa da sua turma de sétima série colegial. A única coisa que o rapaz não conseguia renegar era a ebulição oriunda da idade: corpo, pelos, hormônios, dúvidas, revolta. Certa vez, num daqueles dias em que o adolescente parece não caber dentro de si e algo precisa sair - tudo precisa ser dito ou não haverá espaço para pensar mais, criar mais - ele perguntou a professora de geografia porque era mais importante decorar as capitais estaduais do que descobrir os motivos pelos quais alguns homens tinham muita terra, muitas casas e outros homens não tinham nada e viviam nas ruas. A professora, confusa, preferiu encarar como uma afronta ao seu plano de aula diante da insistência do menino por uma resposta e lhe aplicou uma ótima advertência e um passeio à direção. Robin era perguntador, curioso, mas ninguém parecia interessado em fazer as mesmas perguntas que ele. Me parecia estar nascendo uma árvore, repleta de galhos, bons frutos e uma bela sombra a servir muitos que passassem por ela, mas a quantidade de jardineiros imperitos a podar seus galhos, seus questionamentos, arrancando-lhes os frutos antes de estarem maduros era tanta que as dúvidas foram permanecendo aprisionadas, a capacidade de expor foi se eximindo aos poucos. A questão é: as palavras precisam ser ditas, as perguntas precisam ser feitas, as respostas precisam ser perseguidas (e nem sempre encontradas), ou a mente transborda.


Robin estava tirando dos ricos e dando aos pobres, assim como sempre quis. Com seu arco em punho, de flecha em flecha ia derrubando os guardas até chegar ao próximo tesouro para então fazer a festa de quem queria no mínimo comer. Corria pelas ruas bravejando contra as injustiças do mundo, dizendo ser Robin Hood e tentando formar um exército de aliados. O apelido de criança (que ele dera a si próprio) se tornou realidade, ainda que só para ele. Foi seu primeiro delírio, e nem teve tempo de chegar ao momento de repartir o tesouro encontrado, tranquilizantes impediram o feito nobre da justiça, homens de branco se encarregaram da imobilização com aquela camisa estranha que faz a pessoa abraçar a si mesma – o menino percebeu e achou intrigante que único abraço recebido ao vesti-la seria o próprio – bela recompensa por fazer justiça. Ninguém falava nada além de nomes de remédio e doses acompanhadas de olhares inexpressivos que pareciam significar alguma coisa. Enquanto a mãe chorava o menino só tentava explicar que ele estava fazendo o justo, sem entender porque ninguém concordava com ele.
A mente dele transbordou pela primeira vez aos dezoito anos. Não se pode subestimar a mente, ao passo que a enchemos a todo o tempo com tanta contradição e perguntas sem respostas, devemos esvaziá-la na mesma medida – ou ela encontrará a sua própria rota de fuga.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ingênua


Eduardo insistia em dizer que “antes de cobrarem dele uma conduta ética, moral, que a filosofia tratasse de resolver o que era cada uma delas”. Em suas aulas de Economia Política nas salas da Universidade, a figura de professor o permitia o privilégio de incitar todo tipo de debate para então deixar que os argumentos se confrontassem enquanto ele apenas observava sem manifestação. “O debate quase nunca se faz entre idéias, mas entre pessoas e orgulhos, que as vezes até se preocupam com as idéias”, se defendia ao conversar com Alfredo, professor de Ciência Política e fervoroso membro do Partido Comunista. Nos idos da conversa de bar dizia que a única ética que o contemplava era a contida no código da profissão. “E olhe lá!” afirmava. Duas horas de conversa se passaram para que Alfredo iniciasse sua confidência:
- Edu, tem uma aluna... Cara, 18 anos de docência e uma conduta sem desvios. Mas ela eu não sei te dizer o que tem, ela é única, meu camarada. Essa menina está me fazendo sentir vivo de novo.
Alfredo insistia que ele continuava a ser ético, ou seja lá o que fosse, apesar do romance. Com os olhos marejados, perdidos em algum lugar acima dos ombros de Eduardo, comentava a silhueta jovial, cabelos cacheados até aquelas nádegas redondas e imponentes, olhos cheios de vivacidade, seios soltos por de trás daqueles vestidos, afirmando ainda mais sua liberdade subjetiva. “Ela é dotada de uma ingenuidade que me excita, me tira do prumo completamente, meu caro”.
- Até a ingenuidade pode ter seu traço intencional, amigo – sorriu Eduardo com o canto da boca antes de continuar – a mulher que sabe o poder que a ingenuidade exerce sobre os homens, será ingênua sempre que puder.
No instante que Eduardo tentava arrancar do amigo, diante daquele “desvio de conduta”, alguma tranqüilidade ou sorriso com tais filosofias baratas, Alfredo, ao contrário, empalideceu instantaneamente e fixou os olhos inexpressivos na porta do bar. Parecia estar vendo o próprio Che Guevara entrando. Mas via, na verdade, a sua aluna, jovial, travessa, trazendo uma segurança no andar e algo de instigante no sorriso. Trajava um jeans que abraçava suas pernas até morrerem em suas sandálias de couro trançado até os tornozelos, a blusa era algo indiano ou afim, que deixava um dos ombros a mostra, no cabelo um rabo de cavalo que deixava boa parte solta nas costas. Eduardo até compreendeu melhor seu amigo, era realmente uma jovem muito atraente, mas caminhava na direção dos dois com seu braço rodeando a cintura de um rapaz também sorridente e vivaz, beijando-a o pescoço de tempos em tempos sem parar de andar. Daí a perplexidade de Alfredo. Parou diante da mesa e com um “olá professores, é bom saber que vocês são seres humanos também.” - um sorriso que não deixava claro ser de prazer ou ironia, tão sensual que até Eduardo a desejou em silêncio – se abaixou e ao beijar o rosto agora corado de Alfredo e continuou: “um beijo no meu melhor professor”, e se atirou novamente nos braços do rapaz – um merdinha, segundo Alfredo – que sorriu para os professores acenando com a cabeça e deu as costas, levando consigo a aluna e sua ingenuidade.
- É meu camarada, a ingenuidade nas mãos erradas pode causar um estrago.
Pobres homens, sempre mais ingênuos do que imaginam.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Palavras


Ideias na Cabeça
Autor desconhecido


Começa o jogo e elas são reféns

Prisioneiras no cárcere de nós

Tentando construir a fuga pela voz

Ou na timidez de qualquer gesto

Enfrentando todo tipo de protesto

Se fazem livres entre sinais e sons

Você inerte enquanto elas dão o tom

O jogo inverte, pois, seus papéis

E ao dizê-las você descobre o refém que és

Norhan Sumar