domingo, 17 de julho de 2011

Descobrir-se

 Você já buscou a solidão? Voluntariamente, já foi em busca de estar sozinho, sem que sempre tivesse alguém de teu convívio preocupado com teus passos?
A maneira como tratamos a solidão é injusta e medrosa, na imensa maioria das vezes. Solidão, por maior que seja a carga advinda do nome, não precisa ser eterna ou significar exílio, tampouco falta de companhia – essa também me assusta. Solidão pode ser uma opção momentânea, uma forma de encontrarmos conosco.
Particularmente, é sozinho que eu conheço a mim mesmo. Que consigo estudar a minha própria companhia. Discernir o que eu penso ao analisar um casal formado por um oriental de cabelos despreocupados com alinhamento e uma negra de cabelos cujas formas representam toda a sua atitude. Se sorrio ou perco a paciência quando uma criança se agacha abruptamente diante de mim pra descobrir que aprendeu a amarrar o próprio cadarço. Ou como julgaria um casal que não faz nada além de se beijar o tempo inteiro, explicitando aos olhos curiosos toda a sua paixão mútua. Sozinho eu tenho tempo de olhar para os outros e me descobrir com isso. De entender a maneira como a falta de um comentário pode ser bem mais completa do que centenas deles.
É quando estamos na companhia duvidosa da solidão que podemos descobrir o valor da nossa própria companhia.
Se nem nós mesmos conseguirmos conviver conosco, imagina quem o faz por pura necessidade.

domingo, 12 de junho de 2011

Um entre tantos


Enquanto eu conto essa estória de encanto, dor e pranto. Há de vir um “entretanto” de amor que dá ao canto por enquanto um teor de esperança...
Contar-lhes-ei um caso de querer-bem de um soldado raso que sem temer o susto, lutava pelo justo amor a sua terra. Enfrentava o entreposto, mesmo que à contragosto, servia-se de continências sem rostos e sem motivo suposto em uma guerra.
Do outro lado, sem saber da vida do soldado raso, havia um destino que trouxera uma menina chamada Carolina para os campos do acaso e do amor que nunca erra.
O soldado já cansado, num momento desatento se deixou ser baleado. Com seus olhos apagados e mais a dor do ferimento fora finalmente derrubado. Sem sequer um movimento, nem de pernas nem de braços, conseguiu se por de lado e ver o sangue derramado a se juntar ao chão gelado.
Recém acordado, com um dos olhos entreaberto, de sua morte estava certo, sem saber que sua sorte lhe fizera muito forte pra vencer osso quebrado.
O soldado, tarde levantara pra jogar água na cara, sem ter tempo ele repara que a enfermaria se ilumina, como jóia rara na presença da menina, Carolina. Trouxe em mãos os seus cuidados, nos olhos inocência, no corpo a aparência que conquista reverência e transforma apaixonados.
Os olhos se cruzaram, o coração acelerado conduzindo o contato do homem que pra ela era só mais um soldado. Ele ainda trôpego, se refez inteiro em fôlego, sem saber no que pensar, falou sem gaguejar sugerindo um jantar com a dama mais bonita que ele vira respirar. A moça então corou, aceitou sem hesitar. E foi nessa ocasião, ao sentir suar a mão, que o sorriso lhe brindou com a emoção que o amor lhe reservou. A estória começou.
Mas como em toda estória de amor, o azar afronta a sorte, de Romeu e Julieta a Dom Quixote, que no final trazem a morte pra fincar a dor no forte. O soldado já curado, novamente enviado às trincheiras do injustificável, pra enfrentar a deplorável limitação humana, envolto no medo e na mazela de morrer enquanto ama, só fazia pensar nela.
Já a menina, a bonita Carolina, apertada de saudade, conhecera a parte boa da maldade e seus bocados, mergulhara nos pecados sem temer as possibilidades. Mas a paixão não se limita à certeza, e faz do fraco fácil preza, conduzindo aos caminhos tortuosos da vontade.
Eis que o soldado, antes forte e imbatível, submerso no controverso previsível de estar mais perto do invisível que é o amor, se rendeu de novo ao inimigo, tal como no incidente antigo, porém com um tanto a mais de dor. Viu novamente o chão de perto, sem ter ao menos descoberto o que a vida lhe guardava, chorava por saber que não veria novamente aquela que amava.
Carolina conheceu o amor, a dor e o pranto. Esperara, no entanto, que as rosas desse campo lhe trouxessem só encanto e se enganou. Provou caminhos tantos de espinhos  e quebrantos presentes no sentimento que aprendeu desde menina que continuamos vivos ao morrer por dentro.
Norhan Sumar

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Regionalidade


O temperamento regionalista, inerente a minha vontade, me intriga, irrita, incomoda, estimula.
Há algum tempo como forasteiro na terra cinza, de gente fria e clima não diferente, tenho aprendido a lidar com algumas diferenças minhas e alheias:
 A introspecção das pessoas como um consenso quase geral de comportamento;
A falta de comprometimento com a educação do “bom dia”, “boa tarde” e afins;
A pouca preocupação (ou nenhuma) em ser simpático, receptivo, turístico ou amigável.
Entre outras coisas.
Detalhes que me fazem aprender a conviver comigo mesmo; mostram-me que eu tenho todos os atributos pra ser a minha melhor companhia; que a solidão não é vilã, só precisa ser administrada e compreendida; mas que em nenhum lugar do mundo encontramos somente pessoas indisponíveis às relações interpessoais, isso estimula ainda mais a percepção e receptividade de quem busca o contato.
Ainda que com consideráveis diferenças de convivência, não me sinto excluído ou renegado. Confesso que nem me incomodo com a indiferença dos nativos. Afinal, nem sempre quero conversar na fila do banco, no ponto de ônibus ou no banco da praça. Essa novidade momentânea não me desagrada. O que me surpreende é que, mesmo me achando um forasteiro atípico por entender a personalidade local, não consigo negar as minhas origens e suas peculiaridades: cresci escutando que a minha regionalidade me faz esperto por natureza, cuja verborréia é capaz de convencer ainda que retórica, que a audácia é atributo insubstituível, que a eloqüência pode ficar pra última frase do discurso, que as pessoas me achariam malandro mas gostariam disso, que as mulheres me achariam canalha mas também gostariam disso e por aí vai.
A questão é que mesmo com esforço para aderir a certos comportamentos, os traços da personalidade que representam a regionalidade são esculpidos em nós, lapidados vagarosamente até que nos tornem um representante da terra natal. E querendo ou não, carrego comigo a vontade de manter acesa essa chama de regionalismo e saudade. E certamente o clima gélido, o comportamento frio e a garoa que nos recebem por aqui não representarão sequer ameaça de apagá-la.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Pode não - a menina e o moço

Pode não ser tanto o teu querer
Cabe não ser pranto a minha saudade
Na verdade entre tanto bem dizer
Há de haver um quê de canto na vontade

Pode não ser louco teu amor
Tende não ser pouca a minha loucura
Na vaidade de um réles escritor
Há de ter o teu afago como cura

Pode não ter ponto a nossa vista
Perde o realista que não sonha como nós
Na distância que emerge o otimista
Há de ser o meu soneto a tua voz

Pode não ter fim e nem começo
Desde que por entre estejamos
Na história de amar os teus avessos
Há de ter seu eu em meus meandros

Norhan Sumar

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Velhosidade

                                                           Foto: Fabiano Mazzoco
As marcas impiedosas do tempo davam ao seu rosto o recado da vida sofrida e dos anos árduos de um passado cuja preocupação com a pele era privilégio dos fabricantes de casaco com a de algum animal.
Sentado, observando o tempo passar com suas pernas inúmeras, algumas como as dele, outras mais calmas e lentas, sequer percebia o presente, sequer conhecia algum tempo verbal que não o conjugado no passado. Pensava nos caminhos e escolhas, nas decisões impensadas que insistira em tomar. Teve uma vida inteira para definir prioridades, mas escolhera pensar nelas na última volta da corrida.
A angústia é o que o leva a arrogância. A melhor defesa encontrada para confrontar todos os que pensavam poder lhe dizer o que fazer. Sua companhia é a praça, o banco, as rugas, os pombos e a solidão. Busca na quietude do silêncio uma forma de fugir do arrependimento pelas escolhas erradas e de tudo que não foi feito. Busca no vazio de si mesmo uma resposta para ter de ir tão longe. Por que precisamos viver até o tempo de nos arrependermos? Não seria melhor viver e morrer sem tempo para lamúrias advindas da especulação do que nunca aconteceu?
O ciclo segue. Prossegue com a rotina de lágrimas secas, que suas conjuntivas envelhecidas não mais produzem. Sem o paladar doce de degustar a vida e seus prazeres. Sobrevive somente para lembrar que um dia a sua própria biologia lhe permitira o cheiro da vivacidade. Convive com a presença sarcástica e cruel do abandono daqueles que alimentou e viu crescer. Sobrevive...
Hora apoiando as mãos sobre o joelho que lidera as pernas cruzadas, hora posicionando sua boina de forma a proteger sua catarata da luz solar, sempre se vê diante da mesma parede de pensamentos assentados como tijolos: Por mais que mudasse o início, por mais que fizesse diferente o meio, ali, exatamente ali, daquele mesmo jeito, seria esculpida alguma forma de arrependimento para o fim.
Norhan Sumar

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cortinas


Abre as cortinas pra mim?
deixa-me adentrar teu palco de drama
pra mudar o fim da trama
e colocar sorrisos no rosto do público
findar de vez essa súplica infame
ser cúmplice dos teus crimes
fazer rimas, mesmo que elas não rimem
fazer amor, mesmo que o amor engane

domingo, 24 de abril de 2011

Proximidade distante


A vida te sorri o dia, ainda que esteja escuro. A morte carrega a indumentária fria, arrastada pelas lágrimas e lamúrias dos que não estão dispostos a receber sua visita.
As duas, tão próximas e tão distintas, separadas pela linha tênue que pode representar o último suspiro; de mãos dadas, elas nos observam, selecionando criteriosamente um a um os que farão parte de seus seletos times.
A vida nunca é privilégio de um só. Existe a família, os amigos, os inimigos, os clientes, os fornecedores – olhares que esperam enxergar em você a vida. Altruísta por si só. Já a morte, solitária, te tira sem possibilidade de negociação o mais basal dos direitos: existir. Almas e crenças a parte, foi-se o corpo, foi-se o que chamamos de vida. “Vivemos” a morte sozinhos, deglutindo a sua presença como quem tenta se deliciar com um pão velho sem o benefício da mastigação e ajuda da água. Amarga, mesmo quando vem cessar o sofrimento de viver nas piores condições.
A morte, inevitável, ainda assola o sono de quem acha que tem vida. Preocupamo-nos com o vento frio que trará a morte sem nos dar conta que o acalento da vida só entra na sala de estar do nosso peito se for convidada. Não é preciso de vida para simplesmente existir; mas é preciso se permitir para que haja vida.
Não se deixe levar pelo pesar de precisar negociar com a morte momentos a mais de suspiros falsos e sorrisos forçados; ela não te dará muitas opções. Negocie com a vida todos os sorrisos e desejos que te conduzem a satisfação e alegria, sempre que puder. Para que quando a vida sair de cena, você não precise permanecer no palco tentando um papel sem luz, de cortinas fechadas se a morte trouxer o final da história.
Norhan Sumar