quarta-feira, 4 de abril de 2012

Arte: Antoni Bemi                                           
Eu prefiro a paz
Mas ser pacífico demais
e entregar nas mãos de tais
os meus direitos mais vitais
de viver, correr atrás
Não dá mais!
Cadê o povo tão voraz,
nas capas dos jornais,
a lutar por ideais
e direitos sociais?
Ao pensar no que se faz
em condutas imorais
nos palácios federais
que faz do povo animais
No interior de mim,
não há paz...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Retrato


Ao som de Cazuza, “Trem das Estrelas”, que deixava o dispositivo móvel e se disseminava na mente deles através do fone de ouvido, entrou o casal em mais um ônibus lotado da cidade. Na realidade, “transporte público naquele país era famoso por ser desagradável”, pensava ele ao ter que ficar de pé para que ela sentasse ao lado de um sujeito mal encarado com um rosto redondo, uma cabeça parcialmente calva e um resquício de barba assimétrica no rosto, em um banco que ficava na metade exata do ônibus. No banco de trás, uma mulher de meia idade, talvez com uns 35 mas aparentando 45 anos ladeava uma criança de aparentes 5 anos que provavelmente nem pagara sua passagem devido a lei que a amparava e ali estava a ocupar um assento. “Que merda de lei! Ela está mais nova, tem mais vitalidade.” Bravejava apenas para a própria mente. Via-se uma idosa em pé e muitos dormindo, ou fingindo estar para permanecerem sentados até o alívio de ver alguém dar lugar a ela. Eram cadeiras reclináveis e acolchoadas, com um arzinho gelado resfriando o pescoço dele, que observava sua menina dormir ao lado daquele calvo com “cara de sujo”. “Ah, mas se esse monte de merda encosta nela.” Pensava no que lhe parecia um impulso de coragem que não era comum. Retirou momentaneamente o fone do próprio ouvido e percebeu que o ambiente continha uma trilha sonora específica, oferecida por um passageiro que parecia não se preocupar com fato de não compartilharem do mesmo gosto musical que o seu.  Foi quando se ouviu um estampido seco e breve, seguido de muitos gritos desesperados. Muita gente levantando, correndo, pessoas se jogando no chão sem deixar que curiosidade os fizesse procurar a origem dos tiros. Ele nunca havia escutado um tiro de fato. E outro estampido. Ele ficou em pânico. A sua menina estava longe dele. Fora arrastado para a frente do ônibus por duas mulheres exacerbadamente em pânico. Viu que no final do ônibus havia dois corpos no chão, um sobre o outro, sem vida, com algo que parecia sangue a manchar as roupas e o chão, um homem empunhando uma pistola cromada que ofuscava o olhar daquele reles estudante de geologia. Sem considerar sua inabilidade e fraqueza correu em direção ao homem. Só lhe passava pela cabeça salvar sua menina. O homem segurava a arma como quem soubesse o que fazia. Olhou para a carcaça franzina do rapaz que vinha em seu encontro e não hesitou. Mais um disparo foi dado. Ouviu-se um estampido seco e breve novamente, seguido de um grito desesperado, mais alto e lamurioso do que os outros. A menina saltou em cima do seu herói, mas não havia sangue nem sinal de tiro. “ele estava vivo.” Ela não pôde acreditar, o pranto continuou, mas agora com alguns grunhidos de alívio. O homem atirou contra si mesmo, mirou no lobo temporal e disparou. Matou o casal sentado no último banco e acertou a própria têmpora. Levou com ele as possibilidades de explicação do feito, do ocorrido. Levou com ele os motivos junto com as vidas, de forma egoísta, como quem no conforto de um assento ignora um ancião de pernas cansadas e aparência abatida que permanece de pé. Não disse palavras, disse gestos, que talvez não na mesma proporção, mas ainda sim egoístas como vários outros.
Norhan Sumar

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ler ou não ler

Caro pensador visitante, devo desculpas pelo abandono dos últimos meses. Mas outras vertentes da minha vida precisaram de dedicação enorme.
Prometer não é o caminho, mas aos poucos loucos que ainda passam por aqui em busca de alguma atualização, afirmo que a tentativa será de manter, a partir de hoje, duas atualizações por semana - uma terça e outra sábado. Talvez um texto livre terça e um conto sábado.
Pra começar bem, vamos ao texto desta terça... Que pensemos sempre por aqui!

Ler ou não ler

Uma infância rodeada de peripécias, molecagens, álbuns de figurinhas e desenhos animados. Nenhum livro me encantou antes dos dezesseis. Eu não sou filho de professores que têm respeito no meio acadêmico, escritores de lindos artigos e livros que fariam brilhar os olhos de um leitor. Normal como boa parte das pessoas, ou não. Tinha audácia e opinião suficientes para dizer que ler é um saco, uma perda de tempo. Um tempo precioso que poderia estar sendo gasto com coisas mais interessantes como parar na frente da escola e ficar olhando outras pessoas passarem.
Mas então vem o primeiro livro. E por um motivo desconhecido, a gente lê em tempo recorde. Outros o acompanham, preenchendo a sua leitura cotidiana com algo além de revistas de fofoca e capa de jornal na parte lateral de alguma banca. Quando percebemos, não nos preparamos para sair de casa sem o bendito na mochila. Depois, saímos de casa para lugares tranqüilos só para darmos atenção a eles, aos livros.
Considerando as preferências e afinidades de cada um – tem os que gostem dos Best-Sellers, os que prefiram as ficções adolescentes, os policiais, suspense, drama, religiosos, auto-ajuda, e por aí vai. Mas ler parece ser tão contagiante, que basta darmos o primeiro passo em direção ao livro que nos agrada para não pararmos de virar página atrás de página, ansiosos pela próxima parte em que riremos sozinhos sob olhares desconfiados dos que nos circundam.
Ler é abrir caminho para sua imaginação, sempre permitindo que crie à sua maneira algum detalhe que até o escritor mais criterioso sempre esquece. Ler me livra do sedentarismo mental, me isenta da ignorância estática de assistir televisão todo dia e toda hora. Ler exercita meus pensamentos, aflora a vontade de exteriorizá-los, me tira da prisão do mundo e me lança sobre a liberdade da criatividade.
Se é questão de gosto, ler ou não ler, alguém soube temperar meu prato depois de alguns anos de aversão ao hábito. Se é questão de paciência, confesso que não sou o mais sereno dos homens, mas tolero mais facilmente momentos de páginas numeradas e repletas e pensamentos e arte do que a hostilidade e o egoísmo do lado de fora da janela.

Norhan Sumar

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Dúvida


Dissonância do pensar
a distância de saber
confiar pra (des)confiar
no que não se pode ver

 A petulância de deitar
e pensar sem perceber
que o corpo quer andar
pra mente adormecer

Então muda a decisão de outrora
a dúvida é o que prevalece
frente a hora de ir embora

Paixão é que não mais aflora
pois amarga é o que fenece
se até agora eu só traguei demora

Norhan

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


Eu não consigo descrever você
Ou o encontro do meu corpo ao teu
O teu olhar de dispensar palavras
A tua face se preenchendo em cor
A cada frase de contar o amor
Que só você sabe fazer nascer
Amanhecer bento de prazer
Por entre beijos de adormecer a dor
as mãos que tocam, mesmo a tremer
o mar de amar que há pouco desaguou

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Reavivar


É quando não se sabe se é terno ou visceral
E não se espera nada eterno ou anormal
Que conhecemos a saudade mais forte

É quando a gente enxerga que o amor não e carnal
E que a alma faz o encontro parecer tão natural
Que a verdade mostra que destino não é sorte

São teus olhos que me convidam a fechar os meus
E deixar que minhas mãos vejam a sua beleza nua
findar toda distância que há entre você e eu
Dar a minha vida o deleite de fazer feliz a tua

São meus versos que pretendem os sorrisos teus
Te dar o avesso a impedir que a rotina diminua
a paixão e o calor que um dia já me deu
O seu olhar me contemplando sob a luz de qualquer lua  

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sorrir e chorar


Um sorriso que lhe surge sem ser convidado, na fila do banco, no banco da praça, na pressa da agenda, sem ao menos ser percebido. Você acorda, se lembra e sorri. Levanta, lava o rosto e o espelho denuncia que estás sorrindo. Olha para a pia, a louça suja te faz lembrar, sorri. Olha para a mesa ainda posta e um suspiro te faz dar espaço ao sorriso involuntário da ternura. Caminha pensando que permanece lá a sua espera o motivo de tantos sorrisos e sorri.
De tanto sorrir, a gente chora, pois nem tudo é constância e a vida é dinâmica demais pra se alimentar somente de sorrisos. A saudade lhe acomete, você se lembra e chora. A distância te incomoda, você se lembra e chora. A rotina tarda o encontro e os olhos não conseguem frear a chegada das lágrimas. Olha para a televisão e flagra o beijo apaixonado dos protagonistas da nova história de amor e chora, sorrindo por amar também.
O amor não se define. Inunda a alma. Sorrir ou chorar é só uma questão de ponto de vista.