domingo, 27 de maio de 2018

Intenções

Acredite
nas minhas melhores piores intenções
Ou não
Apetite
em mente a gente sabe como ser verdade
corpo são
Há limite
do que eu quero eu digo quase nada a ti
senão

Intrigante
pensar no erro, na distância e na sua dança
tensão
Instigante
a juventude, a plenitude e o brilho no olhar
quinhão
Quietude
do seu silêncio inundado de outras coisas
em vão?

Amiúde
eu penso e hesito, falo e explico meu querer
paixão
Apressado
eu quero logo e muito e tudo muito mais
tesão
Marcado
a ferro e fogo de voz e sotaques seus
canção

Vontade
de despir a alma e vc, o corpo e as palavras
então
Saudade
de sentir o que tão pouco eu experimentei
Razão
Verdade
que como o erro não te impede de ser meu amuleto
Meu chão

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Erro acertado

E você que tem medo do erro
Que não se lança
Não sabe o que mora por lá
Perde o passo
Preocupado com o compasso da dança

Te trago notícias daqui
De onde mora o errado
Se desprende do seu dualismo 
Aqui há braços
Melhores pedaços daquilo que foi rejeitado

Eu gozo do meu erro acertado
Do sorriso e da vontade
de tudo que é hesitação e querer
Um jeito que nega
Mas premia o lábio de um calor que invade

Tá certo acolher o errado?
Trocar tudo pelo suposto equívoco
Por um desejo de ter
de ser inteiro aí dentro
Ocupar você, beber seu veneno e negar o antídoto

Tão perto pra estar separado
Já não sei medir lugar e tempo
O fato é querer estar
completo nas curvas do erro
Sabido que mesmo pro erro que arde a vida pode ser vento

Norhan Sumar

domingo, 6 de maio de 2018

Enganos e agrados

Me orientei pelo que me contaram 
Sobre sua cor favorita ser cinza
E que talvez vc fosse fria
na maior parte das vezes ranzinza 
Vivendo de fazer chover e trabalho 

Me armei de lugar, das coisas que me forjaram
E logo na minha chegada você avisa
não é raro te chamar linda
Que mesmo longe do mar sabe ser brisa
Chamando a viver os prazeres do seu calendário 

Me enganei sobre tudo e me vi desarmado 
Me parece que o que vc encosta eterniza 
Suas curvas e suas manias
requintam o que sua luz sinaliza 
que sua morada é em qualquer relicário 

Me apaixonei por você e por tudo daqui 
talvez seja a forma que vc improvisa 
Dando saída pras noites vazias 
tornando vivaz a alma que agoniza 
sendo o incomparável do meu dicionário

domingo, 26 de março de 2017

Gergelim

Lá dentro cresce um gergelim
Sem sons ou chutes, por ora
Sem poupar ninguém da demora
De chegar e mudar os sorrisos e sono


Lá dentro cresce um gergelim

Sem minha mão ou ajuda, por ora

Sem saber o que passo aqui fora

Ao tentar fazer parte, sem saber como


Lá dentro cresce um gergelim

E não poderia haver melhor lugar

Pela mulher cujo ventre é forjado ao lutar

Pelo amor que nem sabe, mas já é dono


Germina, semente e vem pra cá

Desvenda mais coisas dentro de mim

Eu espero ansioso essa hora chegar

Enquanto lá dentro cresce um gergelim


Imagino a gente de uns anos pra lá

Nem sei se sei dar tudo de mim

Mas por ora eu posso tentar

Enquanto lá dentro cresce um gergelim


(Norhan Sumar)

Papai te espera!

domingo, 27 de março de 2016

Identidade nossa

Os nossos sons lhe parecem alheios, não?
Assim como tudo que é de origem nossa
tudo que não parece alinhado ao teu discurso
da hipocrisia, da meritocracia falaciosa
dos traços borrados
da sua visão de mundo

O nosso tom lhe parece alheio, não?
Assim como tudo que a gente trazia
tudo que não seja tua erudição mal fundamentada
requinte blasé, análise vazia
De achar que é detentor da verdade
de tudo

Nossa cor lhe parece alheia, não?
Assim como tudo que seja nossa identidade
tudo que não seja cristão, eugenista ou rendido ao capital
racismo velado, sempre covarde
De achar que define em silêncio
o que é normal

O nosso cabelo lhe parece alheio, não?
Assim como assumir que cabelo é raiz
e tudo que expressa a história da gente
que revive Cláudias em Benguelas, Amarildos em Zumbis
E faz questão de mostrar pra vc
que a elite mente

A nossa luta lhe parece alheia, não?
Assim como tudo que incomode a ordem vigente
tudo que enfrente a acumulação, a propriedade e a exploração
Segregação atroz, escravidão da gente
com caráter de classe, de cor
de achar que é senhor com arma na mão

Parece alheio o que eu quero dizer?
Então me cabe dizer que não calarão
a levada do som, a altura do tom, a negritude da cor e a força da luta
E as tuas condutas que não passarão
quando as pedras na mão forem nossas armas
e a sua resposta for fuga

Norhan Sumar

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Maré

Nunca se sabe o que a maré pode trazer
Mas pra que saber?
Mergulha fundo na reviravolta desses atos
Mesmo que a maré não seja mar
Pra confrontar expressões dessa realidade
Única e contraditória
Que reprime sob varias formas
Que mata com caráter de classe
Dotada de caráter de cor
Da pele e da bandeira política
Vermelha como os olhos marejados
E o chão com sangue da luta
Preto como os ancestrais
E como o chumbo a perfurar a pele de toda a cor

A mare há de se levantar
E nos brindar com sua revolta
Como que fogo pelas ruas ateado
Como que onda a invadir o calçadão das vaidades
De gente feliz pelo consumo alienado
Que ignora ser parte da barbárie
Que adora vomitar a sua parte da verdade

Quando vir maré, mergulha
Que maré é movimento do incomodado e do incômodo
É resultado do que vimos fazendo ao longo do tempo
Mergulha bem fundo
Pq quem o faz se junta e não navega
A mercê do vento
Entregue ao lamento ou contento
Mergulha, pq maré alta inunda
Mas não impede de ver
E não poupa quem nada
Nada faz
Nada viu
Nada sabe
Nada
Trabalho na origem do nome é tortura
e a essa altura me pergunto se mudou
entre a essência e a aparência, o oprimido é opressor
os sujeitos e os corpos permanecem a viver a dor
Perdoa-me se teu trabalho é emprego e o patrão empregador
E de outras formas e se expressam as marcas e cicatrizes do labor
Ainda assim a tortura é inerente e você não se isenta
Se enxerga o mundo sabe
mesmo que não te assole perceber um sofredor
Induzido a acreditar que o mundo é isso que a vida lhe aparenta
Que alimenta o fetichismo do consumo alienado
inundado de uma lógica que formata a consciência
perdoa-me denunciar a tua inocência

ou na inocência acreditar que pra você faz diferença