domingo, 2 de setembro de 2012

Largada


                      
São seis da manhã e o celular já toca as notas que sempre chegam para tira-lo do sono. Ele, Israel, odeia o celular, talvez seja só porque interrompe as únicas horas em que ele pode ter o que quer. Levanta-se e já não vê mais sua mãe, ela costuma sair meia hora antes para o trabalho do outro lado da cidade. Seu pai, ele nunca viu. Acorda com um beijo carinhoso sua irmã de apenas quatro anos, oito a menos que ele. A menina permanece na cama da mãe todos os dias, ela dorme lá, não fosse assim, seria na cama dele. Não há um café da manhã, apenas a mesa, todos os dias posta por insistência da mãe. Aliás, há café, só café. A irmã, por sorte tem a creche que se inicia às sete, meia hora antes da escola dele, ambos comerão por lá. Também por sorte, ou por direito.
Bem perto dali, no “asfalto”, apenas algumas centenas de degraus abaixo, o celular por sorte só toca quarenta minutos depois. Ele, Gustavo, também odeia o celular, talvez só por ser adolescente mesmo. Acorda quase sempre com a voz da mãe, à mesa na companhia de seu irmão mais velho. Beijos e “bom dia” para o início do desjejum. Seu pai, de vez em quando liga para não perder o costume. Sua mãe é quem o leva para a escola depois do café, enquanto seu irmão ruma para a faculdade. O quinto ano de Engenharia parecia ter levado de seu irmão aquela leveza de alguns anos atrás.
Israel deixa sua irmã no caminho, sempre aos cuidados da tia Benedita da creche, simpática e firme, se é que seja possível. Também no caminho, quase sempre encontra alguns amigos de sua infância, sem uniforme escolar, hora portando rádios comunicadores e armas, hora portando a companhia do pai e roupas sujas de cimento. Questiona-se sobre qual das possibilidades está mais próxima dele já que não tem pai. A insistência da mãe é o que mantém na escola. Por ele trabalharia, para ajudar a mãe, e também porque gosta muito de biscoito. Talvez pudesse comprar alguns.
Gustavo segue no carro de sua mãe. A escola não é muito longe, mas como mora ao pé do morro, ela prefere não correr o risco de deixar que percorra o caminho sozinho. Também passa por alguns de seus amigos de infância, na companhia dos pais, empregadas ou até sozinhos, mas todos com seus uniformes escolares. Gustavo também não estudaria se fosse por ela. Se para ser advogado tivesse que enfrentar salas de aula por 60 horas semanais durante os próximos 10 anos, ele desistiria bem antes não fosse a pressão da mãe. Queria ser marinheiro e ir pra onde lhe desse na telha. Talvez como advogado pudesse fazer isso.
Nas salas de aula, as angustias eram quase sempre as mesmas, não fossem as lacunas deixadas pela falta de professores na escola de Israel. No mais, anseio pela hora do recreio, provas, colas, educação física, aulas infinitas de matemática. Aquela coisa que certa vez a professora de português de Israel falou sobre agregar valores, ele não sabe bem se acontecia de fato. E se acontecia, era tão sutil que ele nem percebia.
Na volta, por vezes sem esperança alguma, em outras com uma fagulha acesa, Israel pensava, ao subir seus degraus da vida olhando para baixo, na falta de sorte que tinha. Que tipo de sorte(io) divino o colocara a apenas algumas centenas de degraus da facilidade, da felicidade, da esperança, da fartura, do poder, dos biscoitos, do asfalto?
Gustavo não questionava muito. Nutria apenas a curiosidade de saber como era tudo logo ali em cima. Como eram as brincadeiras, as casas, as mães. Perguntara a sua mãe certa vez, que apenas disse que era cheio de pessoas armadas vendendo drogas e matando gente, assim como noticiam os jornais. Gustavo também subia seus degraus de vida, mas eram apenas alguns até o segundo andar.
De degrau em degrau, caminhavam os dois para algum lugar desconhecido. Seja para o segundo andar após alguns degraus, seja para bem mais alto após centenas deles. O lugar até poderia ser o mesmo no final da caminhada, mas certamente demoraria mais a chegar quem tem mais a subir. As semelhanças que os uniam, garantidas pelos direitos ou pela sorte, mascaravam as diferenças. E aí está a questão que ninguém pergunta em nenhuma das escolas: não seriam as diferenças os melhores alimentos da revolta? Pois essa costuma se alimentar do que lhe cruza o caminho, inclusive biscoitos.


Norhan Sumar

terça-feira, 31 de julho de 2012

Foto: autor desconhecido - Escultura:   Zenos Frudakis¹


É preciso que sejamos livres. Livres para acessar, pensar, criticar e nos revoltarmos quando necessário. É preciso que sejamos livres para expor opiniões e sentimentos. É preciso haver liberdade para que possamos ir e não ir, vir ou ficar onde estamos. Mas é preciso que haja liberdade com ética e não liberalismo, para que possamos diminuir as distâncias provocadas pelo individualismo. Precisamos derrubar as paredes dessa prisão claustrofóbica do fatalismo, onde colocam nas nossas cabeças que a mudança é impossível. Entregar a alforria para o próprio pensar é estar pronto para o debate e para revolta. Afinal, a ressaca do mar não acontece na piscina, ainda que as águas sejam as mesmas.

1. vide link: http://escapismogenuino.wordpress.com/2012/01/16/liberdade-por-zenos-frudakis/

terça-feira, 24 de julho de 2012

Você em mim

Talvez sejam os olhos
expressivamente contundentes
que penetram os da gente
nos despindo dos imbróglios

Talvez seja o sorriso
inundado dessa luz
inocente que seduz
o displicente que se nega ao aviso

Ou será o charme natural?
Da vaidade que completa a beleza
à beirar alguma forma de riqueza
do culminar de todo gesto em sensual

É tudo e simplesmente  isso
você na completude do meu ser
na plenitude do que possa parecer
a minha entrega às nuances do seu feitiço.

Norhan

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Mulher e marcas

Aquela mão do afago
agora agride minh'alma
Os dentes não são mais protagonistas
do sorriso e da calma
agora rangem no calor de cada trago

O encontro é abrupto
os sons parecem breves
meus olhos fecham por reflexo
e as marcas que na minha face escrevem
a dor como um ator corrupto

O choro toma a cena
com o medo de enfrentar o medo
E o segredo tórrido a ser apagado
assim como as marcas dos seus dedos
que o meu corpo envenena

Me sinto alijada aos poucos
dos sorrisos de amar a vida
de emoções que me são privadas
cada vez que sou agredida
eu dou mais razão aos loucos.

Norhan Sumar

terça-feira, 3 de julho de 2012

A água e a pedra

Quisera que o desejo iminente
não fosse inerente aos passos meus.
E a linha reta do compasso
não se curvasse ao embaraço
de fazer do seu abraço
alguma forma de apogeu.

Pudera desse ensejo ardente
fazer paixão presente em peito seu.
E todo medo do meu caso
com o acaso intercedente do fracasso
me permitisse te vencer pelo cansaço
E fazer que teu apreço seja todo meu.

Se o caminho estava aberto
à minha correnteza,
e mesmo com a incerteza
foi melhor ficar por perto

O ditado estava certo,
chamando a pedra, fortaleza
mas minha água, gentileza
fez teu seio descoberto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Epidemia


“Como pode alguém usar crack, Nelson?” perguntava Daniele, nutricionista de um centro de saúde em Cachoeira, uma cidade pequena no interior.
“Não sei, Dani. Como médico não consigo explicar o que leva uma pessoa a embarcar nessa, mesmo com tanta informação, com a mídia, com os profissionais dizendo como as pessoas precisam viver para serem saudáveis.” Respondeu o médico enquanto conversavam no pátio externo da unidade e Nelson aproveitava para acender mais um cigarro.
Os trabalhos estavam calmos naquele dia, como era o habitual na pequena cidade de Cachoeira. Mas como se costuma dizer, os bandidos saem da Capital em busca de refúgios nas pudicas e pacatas cidades de interior para fugir da repressão policial ou coisa que o valha. As cidades pequenas, construídas nos entornos das paróquias, se livram de seus pecados todo domingo de manhã, durante as missas rezadas pelos padres estrangeiros que santificam qualquer pecador após meia dúzia de Aves Marias. E Cachoeira começava a padecer desse “mal.”
“Dani”. Recomeçou o médico. “Será que o sedativo do viciado da sala de repouso ainda está fazendo efeito?” tragou mais uma vez seu cigarro de filtros amarelos que lhe custavam dedos manchados pelo hábito longínquo. “Daqui a pouco ele começa a dar escândalo novamente.” Terminou, acendendo o cigarro da amiga com a brasa de seu próprio.
Eles estavam apenas aguardando a chegada da ambulância para transferência do Aldo. Mais um dependente químico que precisou utilizar o sistema e o sistema não o desamparou. Seus profissionais preparados, formados para serem críticos, reflexivos, humanizados, cientes das diferenças sociais impregnadas no país, cuja abordagem dialógica dá voz ao usuário no processo saúde-doença, trataram de atender a demanda daquele homem que precisava apenas de uma internação a fim de “limpar” seu organismo do tóxico e recondicionar seus hábitos. Simples como tudo parece ser.
A epidemia não fez e não faz distinção, chegou até a pequena Cachoeira. As internações eram encaminhadas para cidade vizinha, um pouco maior, com um hospital de pequeno porte e seus trinta leitos. Mas os investimentos eram tão escassos –  por vezes em estratégia de compulsoriedade nas internações - como em qualquer capital. A realidade de Cachoeira parecia caótica, com usuários de drogas ilícitas pelas ruas sendo criminalizados pelo consumo, transgressores das normas e leis que conduzem o Estado. Tinham ainda alguns dos moradores de rua antigos por ali, incluídos no grupo de “viciados”, pertencendo a ele ou não. E a epidemia era iminente. A epidemia que sofrem as capitais. A doença da desumanização dos tratamentos, das prescrições comportamentais estáticas, do desrespeito ao próximo, da indiferença diante das injustiças e contradições da sociedade. Ah, e o crack? Mas o crack não é a epidemia. A nossa doença é outra!

Norhan

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Primeira viagem


Todo aquele cenário parecia ter sido montado para o momento. A forma que ele tinha de me tocar expressava o que vinha adiante. Nossos olhares se cruzavam em cada toque e ali ficava explícita a minha insegurança. E ele, ah... Ele era muito habilidoso em transmitir todo o seu conhecimento sobre o meu corpo – provavelmente não só o meu. A luz sobre nós iluminava o ambiente de uma forma cuidadosa, capaz de não deixar escapar o mínimo detalhe – confesso que me fez sentir ressabiada e tímida em alguns momentos. “Aquela era a hora”, insistia ele, afinal, já estávamos juntos há alguns meses. Todos aqueles encontros, aqueles contatos e descobertas. Sorrimos juntos, choramos juntos, embora ele sempre comedido, ocultasse as lágrimas atrás de um sorriso admirável de quem compreendia o meu momento. Tudo era favorável, eu queria que fosse a hora, e queria que fosse ele, mas compreendam o meu medo, era a minha primeira vez. Não é tão simples enfrentar a primeira vez com segurança de que tudo será indolor e harmônico. Ao menos não foi assim que Telma me contou a sua própria experiência. Ela disse que nunca mais pisou naquele lugar. E mais, nunca teve interesse de ligar praquele crápula. Já no meu caso, tudo parecia perfeito, a pessoa certa, o momento certo, o ambiente favorável, só faltava uma música. “Mas para que?” perguntava ele. Então começamos – despida, deitada a sua espera, exposta às suas próprias vontades, vulnerável e frágil, estava eu, com os mamilos protuberantes, suplicando por algo a protegê-los do gelo que se fez ali, sentindo a minha genitália pulsante, inchada, cada vez mais úmida. Ele começou conversando comigo, sorrindo um pouco e me deixando tranqüila, tocando meu ventre em leves carícias, fazendo movimentos coordenados, simétricos e confesso que relativamente prazerosos; e, contrariando a calma anterior, sem muita cerimônia juntou o indicador e o dedo médio e num único movimento, sincronizado e pericial, introduziu os dois dedos na minha vagina sem olhar nos meus olhos – ainda não havia dor, somente dúvida. Ele conduziu tudo tecnicamente, Paulo era o nome dele inclusive, alheio a qualquer movimentação que não fosse a minha, a nossa, ele continuou. Conversava comigo enquanto eu gemia, me contorcia de dor, e continuou até ouvir o aquele grunhido de prazer e desprazer, a sinonímia mais perfeita que o choro pode ter, o primeiro conflito entre felicidade e tristeza - nasceu. Fora um parto natural, sem complicações graças às habilidades de Paulo – Dr. Paulo se preferirem. Decidimos tudo no último encontro em seu consultório. Ele, ainda muito habilidoso prosseguiu rompendo os laços físicos entre mim e a minha nova razão de vida, aguardou a expulsão da placenta e finalmente a entregou para uma Técnica em Enfermagem que trouxe até meu colo a expressão mais profunda do meu prazer, minha cria, minha filha. 
Norhan Sumar