quinta-feira, 28 de maio de 2020

Da janela

É tempo de olhar pela janela 
a vida que passa 
a morte também 
os vizinhos e seus cachorros 
seus carros e seus nenens
seus descasos sem acasos
a hora marcada de seus améns

É tempo de olhar pela janela 
da alma de nós 
dos outros também
de egoísmos e solidão
dos iPhones e seus reféns 
dessa ausência de diálogo
dessa terra de ninguém

É tempo de abrir as janelas
olhar direito para o mundo
dos sujeitos deitados na rua
dos direitos alijados 
de cada fração encontrar a sua
para desfazer o estrago 
de gente comer e gente que nunca

Não basta mais abrir a janela
Há de pisar no chão
melhor que seja descalço
sente que é frio como coração 
do patrão companheiro falso 
que passeia com a mão invisível
e calcula o preço do seu estrago 

É tempo de esquecer as janelas
e derrubar paredes, se preciso
ignorar as fronteiras
e os limites seletivos de sempre
que nos repelem para a beira
situam à margem como castas 
e nos concedem a xepa da feira

É tempo de olhar as nossas janelas
Agora de fora para dentro
Sair da gente
Para que o outro esteja 
Aproveitar a tragédia como ensejo 
Para então encurtar distâncias
Multiplicar (saciar) desejos

Norhan Sumar
Respira! Eu dizia a ele 
Puxa devagar o ar 
Enquanto ele insistia que o ar não vinha
e não vinha também o insumo
o teste, a notícia.
Nada
Nós estamos aqui! 
Eu repetia incansável
Enquanto ele respondia com os olhos
Marejados e vagos 
assim como os nossos, sem óculos [em falta]
sem poder fazer nada 

Jovem. 
Nada de grupo de risco 
Arrisco dizer que estava isolado
mas o patrão mandou trabalhar 
Não teve fuga e nem quarentena
Sem live e sem romance
Sem #fiqueemcasa 
Nunca foi gripezinha 
E ele sabia [sentia]
mas o patrão vestiu verde e amarelo
Foi para a rua pela economia
pelo discurso do ódio
Não paga salário para quem não trabalha
[respira fundo, eu dizia]

Por aqui, a equipe se entreolha
O campo de batalha é caótico
Tem medo e dúvida entre nós
e mais falta de ar
falta de leito
falta da família que isolamos 
falta da minha filha
que não se interessa tanto por videochamadas
Talvez seja normal para quem tem três anos
o que acentua a saudade
Será que ela entende a minha ausência?
Me pergunto todos dias ao tirar a máscara

Falta fôlego para todos 
Me sinto insensível ao dizer isso
Mas também me falta ar 
enquanto sobra vontade 
sobra solidariedade de classe 
Trabalhador cuidando de trabalhador
mas sem ar é preciso mais que isso
e se eu adoeço sem carteira assinada
trabalhador da saúde precarizado
contratado sem vínculo 
pacientes instáveis, nós também
nunca estive tão a flor da pele 
Nunca me doeu tanto a morte do meu povo 


Morreu mais um no plantão 
E daí? 
Eu não sou coveiro 
diriam os canalhas
estimulando aglomeração
alimentando a bandalha 
@s colegas seguram as lágrimas 
e as pontas em casa
E as contas em casa? 
Não há “em análise“
O banco que lucra é assintomático 
A indústria de insumo gargalha
higieniza o leito e abre essa vaga

Segue a rotina na ala 
Fecha a cortina do leito
Mais uma parada
E eu sem capote vou mesmo assim
Uma vida importa
Todas elas
As 9.000
Deixei um pouco de mim ali
Em vão? 
Talvez não para quem tem fé
Eu, pagão, choro mais uma perda
Caminho sem direção


Norhan Sumar

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Entre nós

Entre tantos quereres
eu não quero mais
ou talvez não por ora 
te sentir tão longe
te saber tão linda
te lembrar entregue
sem poder tocar 
e provar ainda o nosso melhor
do suor, do sabor do seu mar
das trilhas, corpo nu
do céu, da sua boca 

Entre tantos quereres
também, quisera 
E como não? 
E como, então!
Consome minha intensidade
me ensina teus caminhos
pro prazer ou pra ficar 
pra calar, pro silêncio
de lá, me aponta teu desejo
com a ponta dos seus dedos
mapeando os lábios

Entre tantos deveres
uma subversão
Só uma? 
mais uma cerveja
a saideira, talvez
o nosso olhar, como afago
afogo meu corpo molhado
te aponto minha correnteza
e vc navega, com calma
Só alma? 
Faz como quem ama

Entre tantos poderes 
quem perde é quem não faz
não há tanto faz pra gente
e aqui se faz, até ficar tonto
sem fôlego, sem paga
tirando o pudor pra dançar
observando quem passa
sem notar que a graça
não é o lugar
ou a tensão envolvida
mas o encontro de nós

Entre tantos saberes
Revelo tudo o que não sei
nem de ontem
tampouco de amanhã
e por pouco o assunto não surge
e pra que surgir? 
se sorrir tá tão natural aqui
aliás, que sorriso
alimenta a vontade da gente
faz despedir pensando
em despir nossas almas de novo

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Sorrisos de distância

Permanecemos a um sorriso de distância
E quantas distâncias haverão
Até que não possamos mais sorrir?
Quantos abraços sem calor
Quantos beijos sem amor
Vão atravessar minhas noites sem dormir?

Convivendo contigo à distância
De tantas vezes que você sorriu em vão 
Sem perceber que mesmo longe eu estava ali
Testemunhando seu furor 
Entregando a outros seu sabor
Em destroços como nosso próprio devir

Entre sorrisos enfrentando a distância
Me perdi de novo no olho do seu furacão
E na enxurrada do seu corpo vivi
Submerso no prazer e dor
Réu confesso daquele desamor
Que precisou matar pra decidir

Me ensina a encurtar tanta distância?
e o que fazer pra segurar sua mão
Acordar e ainda te ver aqui
Pra atestar que o temporal passou 
Detestar quem ousar se opor 
Que está decidido, seu  lugar é aqui

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Saudade fudida

Saudade fudida
do encontro dos corpos
do tilintar dos copos
que acompanhavam o papo bom
e nos faziam querer ficar
para ver raiar o dia
ver a cidade acordar
e decidir se a gente dormia
ou cedia ao toque da pele
de dois corpos que se preenchiam
e se inundavam de tanto chover

Saudade fudida
de compartilhar a visão de mundo
o nosso mundo particular
aquela casa na praia
a saia longa de poá
as festas cheias por nós dois
depois a música no bar
gozar de tanto querer e ter
tentar te entregar no toque
o calor que teu cheiro me dá
pra viver de prazer

Saudade fudida
da briga pra querer mais
mudar essa porra toda
O mundo trôpego e inconsciente
a falta de fôlego que dá na gente
o cansaço que dá na mente
e o refúgio que era chegar
Te ver tão linda de sorriso largo
de corpo convite permanente
de desejo de beijar a porta
pra adentrar seu sagrado lar

Saudade fudida
De sonhar juntos
Sintonia louca e inimaginável
de viver tudo agora
de querer a imensidão e nada
de passar a tarde no ar
a noite no bar, sem amanhã
aprender a sorrir pra tudo
a fazer amigos e bons vizinhos
a brigar pra você a vida
querer pra mim
Saudade fudida

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Dias

Tem dias de se sentir abalado
Perceber a catástrofe de tudo
Daquela coragem que te empurrou
A passos largos para o absurdo
Precipício de nós, coração devastado

Tem dias em que o sorriso hesita
Que o teu andar é mais trôpego 
E teu santo desistiu do andor
Pra ir sozinho mesmo sem fôlego
E te deixar com o amargor de quem te evita

Tem hoje que suplica pelo amanhã
Tipo esperar a bonança durante a tempestade
E da janela ver todo aquele estrago
Enquanto o trago do vício engana a saudade
Mas te assopra a verdade da sua vida vã

Tem música que parece não ter fim
Porque acaba mas continua viva ali
Dilacerando memórias em tristeza
E a certeza de querer o final de si 
Do anormal de erros que se inundam de mim

Tem  dias que eu não quero mais ser
Nem parecer o que todos querem 
Gritar até ficar rouco (ou louco)
Sumir e apagar da mente os que me ferem
Em troca do início de qualquer coisa pra viver 

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Então agora

E agora vem você me ignorar? 
Depois de perguntar sobre meu dia
De mandar selfie e descrever sua rotina
Me viciar nas músicas que me enviou
Sem ao menos me dizer alguma coisa
E agora vem você me ignorar
que precoce o encantou acabou

E agora que a sua foto não está mais aqui
Nem o seu rosto eu vejo mais
O arremedo de proximidade se esvaiu
Nem parece que acordei com a sua voz
Que vivemos pele intensa sem mediação 
E agora que a sua foto não está mais aqui 
Junto com o que achávamos de nós

E agora que eu não sei mais o seu nome
Porque aquele parece estar em outra boca
Nem parece que sua perna já abraçou meu desejo
Ou que nós já existimos em intensidade
Ontem já faz tanto tempo que nem sei
E agora que eu não sei mais o seu nome
O espelho sempre me condena a insanidade 

E agora que a felicidade se apresenta
E se revela não exigir nada de mais
Nada do que não fôssemos capazes
Quando adormecíamos um dentro do outro
E que as noites pareciam não ter fim
agora que a felicidade se apresenta
Eu pareço não existir a não ser louco