segunda-feira, 23 de julho de 2012

Mulher e marcas

Aquela mão do afago
agora agride minh'alma
Os dentes não são mais protagonistas
do sorriso e da calma
agora rangem no calor de cada trago

O encontro é abrupto
os sons parecem breves
meus olhos fecham por reflexo
e as marcas que na minha face escrevem
a dor como um ator corrupto

O choro toma a cena
com o medo de enfrentar o medo
E o segredo tórrido a ser apagado
assim como as marcas dos seus dedos
que o meu corpo envenena

Me sinto alijada aos poucos
dos sorrisos de amar a vida
de emoções que me são privadas
cada vez que sou agredida
eu dou mais razão aos loucos.

Norhan Sumar

terça-feira, 3 de julho de 2012

A água e a pedra

Quisera que o desejo iminente
não fosse inerente aos passos meus.
E a linha reta do compasso
não se curvasse ao embaraço
de fazer do seu abraço
alguma forma de apogeu.

Pudera desse ensejo ardente
fazer paixão presente em peito seu.
E todo medo do meu caso
com o acaso intercedente do fracasso
me permitisse te vencer pelo cansaço
E fazer que teu apreço seja todo meu.

Se o caminho estava aberto
à minha correnteza,
e mesmo com a incerteza
foi melhor ficar por perto

O ditado estava certo,
chamando a pedra, fortaleza
mas minha água, gentileza
fez teu seio descoberto.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Epidemia


“Como pode alguém usar crack, Nelson?” perguntava Daniele, nutricionista de um centro de saúde em Cachoeira, uma cidade pequena no interior.
“Não sei, Dani. Como médico não consigo explicar o que leva uma pessoa a embarcar nessa, mesmo com tanta informação, com a mídia, com os profissionais dizendo como as pessoas precisam viver para serem saudáveis.” Respondeu o médico enquanto conversavam no pátio externo da unidade e Nelson aproveitava para acender mais um cigarro.
Os trabalhos estavam calmos naquele dia, como era o habitual na pequena cidade de Cachoeira. Mas como se costuma dizer, os bandidos saem da Capital em busca de refúgios nas pudicas e pacatas cidades de interior para fugir da repressão policial ou coisa que o valha. As cidades pequenas, construídas nos entornos das paróquias, se livram de seus pecados todo domingo de manhã, durante as missas rezadas pelos padres estrangeiros que santificam qualquer pecador após meia dúzia de Aves Marias. E Cachoeira começava a padecer desse “mal.”
“Dani”. Recomeçou o médico. “Será que o sedativo do viciado da sala de repouso ainda está fazendo efeito?” tragou mais uma vez seu cigarro de filtros amarelos que lhe custavam dedos manchados pelo hábito longínquo. “Daqui a pouco ele começa a dar escândalo novamente.” Terminou, acendendo o cigarro da amiga com a brasa de seu próprio.
Eles estavam apenas aguardando a chegada da ambulância para transferência do Aldo. Mais um dependente químico que precisou utilizar o sistema e o sistema não o desamparou. Seus profissionais preparados, formados para serem críticos, reflexivos, humanizados, cientes das diferenças sociais impregnadas no país, cuja abordagem dialógica dá voz ao usuário no processo saúde-doença, trataram de atender a demanda daquele homem que precisava apenas de uma internação a fim de “limpar” seu organismo do tóxico e recondicionar seus hábitos. Simples como tudo parece ser.
A epidemia não fez e não faz distinção, chegou até a pequena Cachoeira. As internações eram encaminhadas para cidade vizinha, um pouco maior, com um hospital de pequeno porte e seus trinta leitos. Mas os investimentos eram tão escassos –  por vezes em estratégia de compulsoriedade nas internações - como em qualquer capital. A realidade de Cachoeira parecia caótica, com usuários de drogas ilícitas pelas ruas sendo criminalizados pelo consumo, transgressores das normas e leis que conduzem o Estado. Tinham ainda alguns dos moradores de rua antigos por ali, incluídos no grupo de “viciados”, pertencendo a ele ou não. E a epidemia era iminente. A epidemia que sofrem as capitais. A doença da desumanização dos tratamentos, das prescrições comportamentais estáticas, do desrespeito ao próximo, da indiferença diante das injustiças e contradições da sociedade. Ah, e o crack? Mas o crack não é a epidemia. A nossa doença é outra!

Norhan

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Primeira viagem


Todo aquele cenário parecia ter sido montado para o momento. A forma que ele tinha de me tocar expressava o que vinha adiante. Nossos olhares se cruzavam em cada toque e ali ficava explícita a minha insegurança. E ele, ah... Ele era muito habilidoso em transmitir todo o seu conhecimento sobre o meu corpo – provavelmente não só o meu. A luz sobre nós iluminava o ambiente de uma forma cuidadosa, capaz de não deixar escapar o mínimo detalhe – confesso que me fez sentir ressabiada e tímida em alguns momentos. “Aquela era a hora”, insistia ele, afinal, já estávamos juntos há alguns meses. Todos aqueles encontros, aqueles contatos e descobertas. Sorrimos juntos, choramos juntos, embora ele sempre comedido, ocultasse as lágrimas atrás de um sorriso admirável de quem compreendia o meu momento. Tudo era favorável, eu queria que fosse a hora, e queria que fosse ele, mas compreendam o meu medo, era a minha primeira vez. Não é tão simples enfrentar a primeira vez com segurança de que tudo será indolor e harmônico. Ao menos não foi assim que Telma me contou a sua própria experiência. Ela disse que nunca mais pisou naquele lugar. E mais, nunca teve interesse de ligar praquele crápula. Já no meu caso, tudo parecia perfeito, a pessoa certa, o momento certo, o ambiente favorável, só faltava uma música. “Mas para que?” perguntava ele. Então começamos – despida, deitada a sua espera, exposta às suas próprias vontades, vulnerável e frágil, estava eu, com os mamilos protuberantes, suplicando por algo a protegê-los do gelo que se fez ali, sentindo a minha genitália pulsante, inchada, cada vez mais úmida. Ele começou conversando comigo, sorrindo um pouco e me deixando tranqüila, tocando meu ventre em leves carícias, fazendo movimentos coordenados, simétricos e confesso que relativamente prazerosos; e, contrariando a calma anterior, sem muita cerimônia juntou o indicador e o dedo médio e num único movimento, sincronizado e pericial, introduziu os dois dedos na minha vagina sem olhar nos meus olhos – ainda não havia dor, somente dúvida. Ele conduziu tudo tecnicamente, Paulo era o nome dele inclusive, alheio a qualquer movimentação que não fosse a minha, a nossa, ele continuou. Conversava comigo enquanto eu gemia, me contorcia de dor, e continuou até ouvir o aquele grunhido de prazer e desprazer, a sinonímia mais perfeita que o choro pode ter, o primeiro conflito entre felicidade e tristeza - nasceu. Fora um parto natural, sem complicações graças às habilidades de Paulo – Dr. Paulo se preferirem. Decidimos tudo no último encontro em seu consultório. Ele, ainda muito habilidoso prosseguiu rompendo os laços físicos entre mim e a minha nova razão de vida, aguardou a expulsão da placenta e finalmente a entregou para uma Técnica em Enfermagem que trouxe até meu colo a expressão mais profunda do meu prazer, minha cria, minha filha. 
Norhan Sumar

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Arte: Antoni Bemi                                           
Eu prefiro a paz
Mas ser pacífico demais
e entregar nas mãos de tais
os meus direitos mais vitais
de viver, correr atrás
Não dá mais!
Cadê o povo tão voraz,
nas capas dos jornais,
a lutar por ideais
e direitos sociais?
Ao pensar no que se faz
em condutas imorais
nos palácios federais
que faz do povo animais
No interior de mim,
não há paz...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Retrato


Ao som de Cazuza, “Trem das Estrelas”, que deixava o dispositivo móvel e se disseminava na mente deles através do fone de ouvido, entrou o casal em mais um ônibus lotado da cidade. Na realidade, “transporte público naquele país era famoso por ser desagradável”, pensava ele ao ter que ficar de pé para que ela sentasse ao lado de um sujeito mal encarado com um rosto redondo, uma cabeça parcialmente calva e um resquício de barba assimétrica no rosto, em um banco que ficava na metade exata do ônibus. No banco de trás, uma mulher de meia idade, talvez com uns 35 mas aparentando 45 anos ladeava uma criança de aparentes 5 anos que provavelmente nem pagara sua passagem devido a lei que a amparava e ali estava a ocupar um assento. “Que merda de lei! Ela está mais nova, tem mais vitalidade.” Bravejava apenas para a própria mente. Via-se uma idosa em pé e muitos dormindo, ou fingindo estar para permanecerem sentados até o alívio de ver alguém dar lugar a ela. Eram cadeiras reclináveis e acolchoadas, com um arzinho gelado resfriando o pescoço dele, que observava sua menina dormir ao lado daquele calvo com “cara de sujo”. “Ah, mas se esse monte de merda encosta nela.” Pensava no que lhe parecia um impulso de coragem que não era comum. Retirou momentaneamente o fone do próprio ouvido e percebeu que o ambiente continha uma trilha sonora específica, oferecida por um passageiro que parecia não se preocupar com fato de não compartilharem do mesmo gosto musical que o seu.  Foi quando se ouviu um estampido seco e breve, seguido de muitos gritos desesperados. Muita gente levantando, correndo, pessoas se jogando no chão sem deixar que curiosidade os fizesse procurar a origem dos tiros. Ele nunca havia escutado um tiro de fato. E outro estampido. Ele ficou em pânico. A sua menina estava longe dele. Fora arrastado para a frente do ônibus por duas mulheres exacerbadamente em pânico. Viu que no final do ônibus havia dois corpos no chão, um sobre o outro, sem vida, com algo que parecia sangue a manchar as roupas e o chão, um homem empunhando uma pistola cromada que ofuscava o olhar daquele reles estudante de geologia. Sem considerar sua inabilidade e fraqueza correu em direção ao homem. Só lhe passava pela cabeça salvar sua menina. O homem segurava a arma como quem soubesse o que fazia. Olhou para a carcaça franzina do rapaz que vinha em seu encontro e não hesitou. Mais um disparo foi dado. Ouviu-se um estampido seco e breve novamente, seguido de um grito desesperado, mais alto e lamurioso do que os outros. A menina saltou em cima do seu herói, mas não havia sangue nem sinal de tiro. “ele estava vivo.” Ela não pôde acreditar, o pranto continuou, mas agora com alguns grunhidos de alívio. O homem atirou contra si mesmo, mirou no lobo temporal e disparou. Matou o casal sentado no último banco e acertou a própria têmpora. Levou com ele as possibilidades de explicação do feito, do ocorrido. Levou com ele os motivos junto com as vidas, de forma egoísta, como quem no conforto de um assento ignora um ancião de pernas cansadas e aparência abatida que permanece de pé. Não disse palavras, disse gestos, que talvez não na mesma proporção, mas ainda sim egoístas como vários outros.
Norhan Sumar

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Ler ou não ler

Caro pensador visitante, devo desculpas pelo abandono dos últimos meses. Mas outras vertentes da minha vida precisaram de dedicação enorme.
Prometer não é o caminho, mas aos poucos loucos que ainda passam por aqui em busca de alguma atualização, afirmo que a tentativa será de manter, a partir de hoje, duas atualizações por semana - uma terça e outra sábado. Talvez um texto livre terça e um conto sábado.
Pra começar bem, vamos ao texto desta terça... Que pensemos sempre por aqui!

Ler ou não ler

Uma infância rodeada de peripécias, molecagens, álbuns de figurinhas e desenhos animados. Nenhum livro me encantou antes dos dezesseis. Eu não sou filho de professores que têm respeito no meio acadêmico, escritores de lindos artigos e livros que fariam brilhar os olhos de um leitor. Normal como boa parte das pessoas, ou não. Tinha audácia e opinião suficientes para dizer que ler é um saco, uma perda de tempo. Um tempo precioso que poderia estar sendo gasto com coisas mais interessantes como parar na frente da escola e ficar olhando outras pessoas passarem.
Mas então vem o primeiro livro. E por um motivo desconhecido, a gente lê em tempo recorde. Outros o acompanham, preenchendo a sua leitura cotidiana com algo além de revistas de fofoca e capa de jornal na parte lateral de alguma banca. Quando percebemos, não nos preparamos para sair de casa sem o bendito na mochila. Depois, saímos de casa para lugares tranqüilos só para darmos atenção a eles, aos livros.
Considerando as preferências e afinidades de cada um – tem os que gostem dos Best-Sellers, os que prefiram as ficções adolescentes, os policiais, suspense, drama, religiosos, auto-ajuda, e por aí vai. Mas ler parece ser tão contagiante, que basta darmos o primeiro passo em direção ao livro que nos agrada para não pararmos de virar página atrás de página, ansiosos pela próxima parte em que riremos sozinhos sob olhares desconfiados dos que nos circundam.
Ler é abrir caminho para sua imaginação, sempre permitindo que crie à sua maneira algum detalhe que até o escritor mais criterioso sempre esquece. Ler me livra do sedentarismo mental, me isenta da ignorância estática de assistir televisão todo dia e toda hora. Ler exercita meus pensamentos, aflora a vontade de exteriorizá-los, me tira da prisão do mundo e me lança sobre a liberdade da criatividade.
Se é questão de gosto, ler ou não ler, alguém soube temperar meu prato depois de alguns anos de aversão ao hábito. Se é questão de paciência, confesso que não sou o mais sereno dos homens, mas tolero mais facilmente momentos de páginas numeradas e repletas e pensamentos e arte do que a hostilidade e o egoísmo do lado de fora da janela.

Norhan Sumar